A MORTE SUSPEITA DO HOLOGRAMA
Data: Jul 01, 2009 - 05:21 PM
Identificamos o acidente, mas nada conseguimos de informação. Nosso problema agora não é solucionar o caso, mas resgatar o jornalista, que sumiu. Não foi encontrado no bar nem na sua casa. Um universo tão imenso, infinito e hostil guarda segredos terríveis e um deles é o paradeiro do nosso colega. Aquele que queria beber um pouco e acabou sendo testemunha de um crime.Quem matou o holograma Zinter Barf e por quê? Essa é uma pergunta que vai ter de esperar. Outra se tornou mais urgente: onde está o repórter Birt Bogar?
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COMUNICAÇÃO
Data: Jul 01, 2009 - 05:16 PM
Jornalismo era considerado um gênero literário. O que fazia parte do entorno do jornalismo – notícias, reclames, editais, avisos etc. – acabou em primeiro plano, deixando de lado a cobertura policial com suspense, o drama das grandes tragédias, as aventuras dos insubmissos, as memórias dos combatentes e a polêmica dos esgrimistas do verbo. O que era um nicho da literatura virou ciência humana e até mudou de nome: foi batizado de “comunicação”.
notas: Crônica publicada no dia 30 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
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PORQUE MORREM OS JORNAIS
Data: Jul 01, 2009 - 05:13 PM
Jornal é uma criatura. Nasce, vive e pode morrer. Não é a galinha dos ovos de ouro. Vejam o que aconteceu com a grande cadeia dos Diários Associados. Era poderosa e parecia eterna. Bastou morrer o fundador, Assis Chateaubriand, para que os herdeiros, um grupo de mais de 20 funcionários que viraram donos, jogassem tudo por água abaixo. Cada novo proprietário era um Assis em miniatura. Ou melhor, a miniatura da imagem que faziam de Chateau, que era considerado porra louco metido a besta, mas era um empreendedor ousado e competente, tanto é que conseguiu montar um império. Imitar os defeitos e não as qualidades do fundador é a receita mortal para o fracasso.
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POSE
Data: Jul 01, 2009 - 05:10 PM
Pose é posse: a imagem pública pertence a quem briga para formatá-la. Quando esse perfil arduamente conquistado escapa e rola na sarjeta, a biografia corre perigo. É preciso então intensificar as poses para recuperar o espaço perdido e definir o que chamam de “virada”. Vemos isso a toda hora. Depois de fazer uma besteira, a celebridade diz em rede nacional que vai colocar a casa em ordem, ou seja, recuperar a identidade ferida.
notas: Crônica publicada no dia 23 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
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O POETA COMO PERSONAGEM
Data: Jul 01, 2009 - 05:08 PM
Há o nerudismo, em dois vetores. Um, o épico, em que você faz gestos largos e tem a voz tremida quando canta nuestramerica. Outro, o íntimo, em que o crepúsculo se deita como um cachorro a seus pés. O épico,depois da luta, recolhe-se em frente ao mar, a apascentar leitores a distância. Lá ele cultiva lembranças, como o tempo em que tentou ser pragmático, quando celebrava a cebola e lamentava jamais ter construído nada com as mãos, nem mesmo uma vassoura. O íntimo migra para o apaixonado, o amante viajador. Ambos usam boné, imitado por todo mundo.
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O QUE O IRÃ NOS ENSINA
Data: Jun 20, 2009 - 05:20 PM
Não há democracia sem eleição direta, mas eleição direta não garante a democracia. Ditadores adoram eleições. Servem para justificar o poder ilimitado e colocar a culpa nos votantes. Qual o modelo de democracia no mundo? Os Estados Unidos, claro. Você conhece algum presidente americano que não seja democrata ou republicano? Não passa de uma gigantesca república café-com-leite, onde dois partidos se revezam para manter a continuidade da política imperial. Adolf, o austríaco nazista, foi eleito pelo voto direto. Assim como o atual presidente iraniano.
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DIPLOMA DE JORNALISTA SERÁ VALORIZADO
Data: Jun 20, 2009 - 05:18 PM
Há uma explosão indignada contra o STF, que extinguiu a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Gente dizendo que vai pedir indenização, que se sente ludibriada, acusando os ministros togados de irresponsabilidade, que vai jogar o diploma no fundo do armário, doar para museu etc. São reações naturais, mas é uma pena que a fúria substitua a razão. Acho que vai acontecer exatamente o contrário: o diploma será enfim valorizado. Vou dizer porquê.
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BRIC A BRAC DO APOCALIPSE VIRTUAL
Data: Jun 20, 2009 - 05:15 PM
Os Bracs reúnem quatro países nada-a-ver que poderão sobreviver a um iminente apocalipse virtual. São eles: Barbados, Ruanda, Andorra e Cazaquistão. São nações que obedecem aos parametros necessários para definir uma posição oculta e cheia de significados. Barbados é o país mais oriental das Caraíbas, situado a leste da área conhecida como Índias Ocidentais (ou seja, é puro século 17, com piratas e tudo). Ruanda é um pequeno país montanhoso da África, encravado entre o Uganda, a norte, a Tanzânia, a leste, o Burundi, a sul e a República Democrática do Congo, a oeste; sua capital é Kigali (“encravado” mata a pau). Andorra é um pequeno país europeu localizado num enclave nos Pirineus (enclave é fundamental). Cazaquistão é fundamentalmente asiático, embora também inclua uma região européia entre o rio Ural e a fronteira russa (nada mais misterioso do que “fundamentalmente asiático”).
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FRIO
Data: Jun 20, 2009 - 05:14 PM
Inverno exige uma resposta à altura. Para quem nasceu no Brasil profundo – a fronteira entre uma civilização possível e a natureza bruta – era necessário refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, único lugar possível para brincar no chão. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. Ou ainda as campeiras, grossos casacos que cobriam costas e peitos; as meias e calças de lã, que devolviam vida a pernas e pé condenados ao congelamento; e as boinas, que tiravam os cabelos do relento.
notas: Crônica publicada no dia 16 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
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CAMANGAS E AMAGADAS
Data: Jun 20, 2009 - 05:11 PM
Camanga todo mundo que nasce entre o rio Ibicuí e o Uruguai sabe: é quando o mocinho consegue amagar os bandidos. Vou dar um exemplo clássico do Gene Autry. Todos nós acreditamos que o grande cowboy cantor tinha enfim se estrepado. Ele estava tocando seu banjo ou guitarra na cadeira de balanço na varanda. Os malfeitores vieram pelas costas e atiraram nele várias vezes. Deu então “episódio”, ou seja, o curta metragem acabou, apareceu a chamada “cenas do próximo episódio” e só iríamos saber o destino do herói no domingo seguinte. Ninguém apostava mais um vintém furado nele.
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FLAGRANTE
Data: Jun 20, 2009 - 05:09 PMNão peço desculpas pelo atraso
Nem pelo caldo, folia de Reis
na serra do Espinhaço, turismo
de sal na areia depois das seis
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VAMOS DANÇAR?
Data: Jun 20, 2009 - 05:07 PM
Alto demais para idade, pé 44 antes da hora, calça quase de pular sanga com bainha italiana, casaco apertado de cor diferente, meia branca, cocoruto pelado saltando dele um pelincho, gomina Glostora no topete, nada disso importava. O baile ou a reunião dançante eram eventos democráticos. Você poderia tentar tirar para o meio do salão a musa do colégio do Horto, o das gurias. Ela até poderia rir, mas pelo menos uma volta dava com você, que teria assunto para mais de um mês, só para falar do cheiro dela, dos passos que se desencontraram e, milagre, dos corpos que se entenderam desde o primeiro acorde. Poderia virar namoro. Naquele tempo, o coração agüentava.
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O SOM DO TECLADO
Data: Jun 20, 2009 - 05:05 PM
É preciso dizer essas coisas, pois irão se perder e ninguém vai mais atinar como tudo funcionava. Os teclados faziam o som das profissões em plena atividade. Os locais de trabalho era os escritórios, lugares onde se escrevia. Trabalhar, durante toda minha vida, sempre foi escrever. Se você está escrevendo no escritório, está trabalhando. Havia pose nos veteranos, que teclavam com a espinha reta, quase olhando para o infinito. Era um jeito cool de se mostrar, exclusivo para quem era observado, estrelas do ofício.
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TRAPÉZIO
Data: Jun 20, 2009 - 05:03 PMTempo não ocupa espaço
Desanda quando acontece
Rastro de sombra, penhasco
Com os minutos em queda
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POR UM TRIZ
Data: Jun 11, 2009 - 04:52 PM
Foi por uma ninharia que não lançamos o olhar na direção salvadora, que não tivemos aquele lampejo de iluminar a face oculta da Lua. Por um triz não conseguimos publicar na hora certa o livro torturado pela gaveta, conquistar o amor longamente cultivado em silêncio e que deixou a sorte passar. Por um triz deixamos de ser a glória que sonhamos e viramos esse pó de armário no canto, quando só anjos pálidos e Deus em pessoa veem, abismados, o quanto somos precários e por isso tão encantadores.
notas: Crônica publicada dia nove de junho de 2009 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
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O QUE DEVE SER SUBSTITUÍDO
Data: Jun 11, 2009 - 04:49 PM
O que deve ser substituído são as fórmulas inadequadas, não o que é velho. Uma idéia recente pode ser uma droga. É preciso somar tudo o que há e houve de bom em um século de indústria cultural. Vi Sorry, wrong number (1948), de Anatole Litvak, com Burt Lancaster e Barbara Stanwyck (foto) baseado numa peça escrita para o rádio por Lucille Fletcher, considerada a melhor e mais importante peça radiofônica do mundo pelo Orson Welles, que era do ramo. Mulher inválida pega linha cruzada e ouve o plano do seu próprio assassinato. Filmado em tempo real, é de arrepiar. Depois foi imitado até mesmo pelo roteirista de Hitchcock, Frederick Knott, em Disque M para Matar. Peça de qualidade para radio, eis algo que não poderia ser deixado de lado.
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KAR-WAI WONG: ARTE E TRANSGRESSÃO
Data: Jun 11, 2009 - 04:45 PM
Acho “Amor à flor da pele” (2000), assim como “Um beijo roubado” (2007), ambos desse fenômeno que é o chinês Kar-Wai Wong, filmes de transgressão. É quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto quântico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a indústria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se dê ao mundo visto por Andy Warhol, ou alguém parecido, com um toque pessoal. Ele submerge na tralha de luz estourada, de cores quentes, câmaras que espiam, para narrar sobre personagens que se escondem e amores que não se consumam.
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PÁSSARO
Data: Jun 04, 2009 - 08:19 PMÉ breve o pássaro
que ofusca a treva
Obscura flor
da ante-manhã
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AVESSO
Data: Jun 04, 2009 - 08:18 PMAgora que a face do sol sem
brilho acorda a face oculta
de deus virado pelo avesso
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TRÉGUA
Data: Jun 04, 2009 - 08:16 PMQuem fala em amor numa noite dessas
quando o tempo morre no horizonte
Quem fala em amor que te apedreje
porque a pedra afagou antes da mágoa
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MARTE
Data: Jun 04, 2009 - 06:47 PMLevantou
porque não havia mais espaço
Suspirou
porque a manhã não abre
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VERANICO
Data: Jun 04, 2009 - 06:46 PMVERANICO
Nei Duclós
maio se despede com o tempo em brasa
último aceno do verão, tardia praia
prenúncio do frio temido pela alma
(exílio juvenil de sombrias memórias)
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O MERGULHO DO VÔO
Data: Jun 04, 2009 - 11:58 AM
Num acidente, tragédia, catástrofe, a primeira vítima é a linguagem. Vamos pegar uma nota da Folha de S. Paulo que tem como titulo “Governo francês minimiza mas não descarta possibilidade de atentado contra Airbus”. Você alguma vez minimizou sem descartar? A série de verbos usados diz tudo sobre a capacidade claudicante de dar uma notícia simples, direta, limpa. Além do já clássico “minimiza mas não descarta” temos aos potes “considerou, não se pode dizer, se deva, insistiu, não se pode excluir, precisou, corrobore, não seja possível, comentou, destacou, antes de acrescentar, reiterou, assegurou”.
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GÊNIO
Data: Jun 04, 2009 - 11:53 AM
Gênio é uma palavra multiuso. Há o sentido mítico, das narrativas ancestrais e que se refere a criaturas encerradas por milhares de anos em garrafas, sem haver explicação plausível de como o continente conseguia acompanhar a eternidade do conteúdo, já que barro e vidro são datados, ao contrário do duende salvador que tudo podia, menos abrir uma rolha. Palavra mais propensa à figuração do que à realidade, acabou rolando pela sarjeta das conversas, como a prática adotada do elogio aleatório a algum evento ou pessoa, que já chega sem força ao objetivo.
notas: Crônica publicada no dia 2 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
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RUBEM BRAGA E OS CONTEMPORÂNEOS
Data: Jun 04, 2009 - 11:47 AM
Uma coisa recorrente nos escritores que nos abandonaram, pela idade ou morte súbita, quando chegamos à vida adulta, é que tinham consideração pela inteligência do leitor. Uma das provas é que limparam a língua de todo o estorvo e nos legaram um texto enxuto, brilhante, eterno, sem as seqüelas do provincianismo, dos anacronismos, da pomposidade, da ostentação e da tautologia. Rubem Braga escrevia assim: “Meu caro Vinicius de Moraes. Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação”.
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