Jorge Luis Borges: O informe de Brodie
maio 13th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: LivrosAdmirador da poesia gauchesca, obra de advogados e jornalistas de Buenos Aires e Montevidéu, ele descobre que os mitos do pampa não passam de uma nostalgia urbana. Fica, portanto, à vontade para abordar, sem concessões, as margens de uma nacionalidade mestiça, da capital e do Interior da Argentina, onde recria, a seu modo, narrativas que todos teimam em lembrar.
Sem pactuar com o derramamento emocional que o cerca, o aço de sua escrita é temperada pelo calor da barbárie pingando sangue. Não há heróis para saudar, a não ser a experiência repassada pelas gerações, onde sobressai a traição, o crime, o ciúme e a falta de importância das personagens. É como se navegasse a favor da corrente de episódios e lendas que seu interesse acumulou, mas com a originalidade de uma linguagem sem raízes.
No rumo das lendas repassadas de boca a boca, obedece a mapas bem demarcados de suas leituras prediletas, livre das obsessões que ocuparam vasto espaço do seus contemporâneos. Ele sabe que a literatura tradicional não se opõe às novidades da vanguarda, já que é feita de um conjunto secular de aventuras. Insiste nessa matriz, consciente da sua infinita capacidade de encantamento.
Desse movimento que flui eternamente, porque realimentado pela memória e por ouvidos sempre atentos dispersos em todas as rodas e confidências, ele aponta para uma cultura que precisa se descobrir para mudar. Haverá saída para um universo onde o assassinato é permitido pelo cinismo da guerra? Sim, se o escritor conseguir despertar o horror ao descrever a cena.
A chave dessa ética cevada na solidão é a viagem hipnótica que a civilização desenvolve ao coração da crueldade: não haverá remissão se a ordem da escrita não dominar o caos da oralidade. Mas essa ordem já nasce, em Borges, contaminada pelos fantasmas de generais, damas, duelos, degolas. É como se houvesse uma rendição, mas sem desonra. É a única vitória possível por um autor especializado em calamidades.
O truque é abrir mão do papel principal, mas não da autoria da trama. A Argentina, assim, transforma-se em puro Borges, o que não deixa de ser uma extrema ironia deste platino com os olhos voltados para a Inglaterra, que no deserto cultivou-se cosmopolita e foi um bibliotecário encerrado numa geografia ágrafa.