O ADMIRÁVEL CINEMA ARGENTINO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Eu escrevia sobre o que não entendia. Deveria ter escrito sobre o medo. Por medo te perdi, por medo trabalho num lugar que odeio. Eu achava que tudo o que eu tocava virava ouro. Mas descobri que tudo o que eu toco vira merda.”

(Fala de Ricardo Darin no filme “O mesmo amor, a mesma chuva”, de Juan José Campanella)

O cinema argentino é a expressão de um país que amadureceu quando foi destruído pelas perdas internacionais, gerenciadas cruelmente por uma elite interna traidora. Os argentinos colocam os torturadores da ditadura na cadeia, expulsam presidentes a panelaços e não perdoam o que fizeram com eles. Por isso seu cinema é tão notável, disparado um dos melhores do mundo na atualidade. Existem inúmeros exemplos, mas prefiro ficar com os três de Juan José Campanella, estrelado por esse fantástico talento que é o Ricardo Darin: O mesmo amor, a mesma chuva (1999), O filho da noiva (2002) e O Clube da Lua (2004).

São filmes perfeitos que abordam, o primeiro, a dolorosa trajetória da intelectualidade rumo à compreensão da miséria real do país; o segundo, a classe média pressionada pela crise e que luta para manter um negócio familiar, cercado pelos monopólios; e o terceiro, a classe média empobrecida que vê no clube um local para se manter íntegra, enquanto tudo ao redor, especialmente o mundo empresarial e do trabalho, desmorona e as cidades se transformam em cemitérios.

PUNIÇÃO – Vejam que temas! Temos exemplos de sobra no Brasil para fazer algo parecido (por que não seguimos o exemplo, sem imitar pura e simplesmente?), mas preferimos outra coisa. Há, entre nós, a certeza granítica de que nos livramos dos opressores e que vivemos njuma democracia, o que seria o álibi perfeito para a aceitação covarde de mais ditadura.

Também há vergonha de pertencer à classe média. É uma espécie de crime que merece ser punido. Empobreceu? Bem feito, quem manda ser alienado. Então não temos filmes sobre o mundo do trabalho e dos negócios. Isso é coisa, digamos, do tal capitalismo. Também não fazemos filmes políticos que denunciam o que achamos ser a esquerda ou os progressistas. Nosso heroismo não permite ver em nós mesmos a essência da derrota do país, como acontece com o filme “O mesmo amor, a mesma chuva”, um haraquiri de extrema lucidez.

E a vida econômica? Somos capazes de entender perfeitamente o que é um spread, mas acusamos o golpe quando se fala em ações humanas comuns e que fazem parte da vida de todas as geraqções. Comprar, vender, ganhar o pão com o suor do rosto são atividades multimilenares. Então ficamos pasmos com esse tipo de preconceito. Como o mundo da honestidade é altamente suspeito, então se entroniza a putaria como modelo de comportamento. Transgredir o tempo todo é a expressão de um país, o Brasil, que não amadureceu quando foi destruído pelas perdas internacionais e pela elite traidora interna. Os torturadores, ditadores, morrem de velhos, depois de continuarem dando as cartas. Por que acontece isso? Porque nos falta coragem, que sobra entre os argentinos.

No cinema, na maioria das obras, somos adolescentes tentando impor nossa sexualidade, a confirmar aquilo que uma senhora muito digna e debochada dizia: os jovens acham que só eles trepam. Vejam alguns exemplos. Cidade Baixa, fica parecendo a celebração da turismo sexual e da prostituição que se quer charmosa. Existem intermináveis cenas de sexo explícito, como a mostrar como se deve trepar. Bem no meio de qualquer cena, as pessoas se pelam e começam a fungar.

VOLTAGEM – Vejam que cena erótica. Ricardo Darin se separou e dorme no clube. Lá, encontra colega da diretoria tentado roubar o cofre, pois está desesperada com a falta de dinheiro e o desemprego. Ela pede perdão e os dois saem até a casa dela. Na hora de se despedir, ela o convida para ficar. Ele recusa, e enquanto argumenta começa a beijá-la. Os dois se colocam em pratos limpos: dizem que estão apaixonados por seus ex-parceiros. Feito isso, entram na casa.

Não aparece uma bunda pulando, um pêlo púbico, um par de perna escancarado. Nada. Mas existe alta voltagem erótica, fruto da situação desesperada dos dois, que se tocam num momento extremo. Ou seja, o sexo não é gratuito, tem a ver com a mente das pessoas, com sua condição social, com a quadra da vida onde se encontram. O cinema argentino não é como nós, que estamos a toda hora dizendo: vejam mamãe, como somos sexy.

A cena mais importante e sem dúvida, antológica (é talvez a melhor cena do cinema contemporâneo) é a discussão entre os sócios do clube , que vão decidir se vendem para um grupo de investidores que querem fazer dele um cassino. É uma cena longa, em que dois protagonistas argumentam, um a favor da venda, e outro contra. Darin (o cara que é capaz de mostrar emoção suprema sem mover uma linha de rosto, como acontece na cena em que assiste o balé da filha) dá razão ao seu adversário, que acena com empregos para os sócios do clube. Mas pergunta se a razão é suficiente. E arremata: não perdi minha integridade, pois quando as porcarias eletrônicas estragaram e eu fiquei desempregado, vim aqui no clube e permaneci inteiro. E pergunta: que valor (ele se referia ao dinheiro) existe na amizade entre nós? Em O mesmo amor, há também uma cena inesquecível e brutal: a briga do jornalista veterano contra o editorizinho de araque que desvirtuou os rumos da revista. Nada mais atual, nada mais revelador.

Esse é o grande valor do admirável cinema argentino, que encerra as principais lições que devemos urgentemente aprender. Chega de coxa e rola pulando em frente às câmaras. Transgressão verdadeira é outra coisa: é resgatar o que perdemos nessa ditadura global que nos escraviza. E não ficar pelado, disponível para o deboche internacional.

One comment
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  1. Adorei isso aqui: “vejam mamãe, como somos sexy”. Transgressão verdadeira é mesmo outra coisa. Acho que desde o Iluminismo o sexo não tem nada de trangressor (pelo menos, não a sua representação em si). Adoro “O Filho da Noiva”. Os outros, ainda não vi. Belo texto. Abs.

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