Welcome Anonymous User  

News

Front Page | Archive ]

O BRASILEIRO ARANHA

Published: May 18, 2008 - 08:37 AM

Nei Duclós



Sabor de picanha criado em laboratório; ideologias sob medida; religiões de resultados; máquinas que não duram um semestre: o conceito de descartável contaminou todas as atividades humanas e chega com força na literatura, na moral, nos princípios. Nacional e mundial são palavras obsoletas, devoradas pela idéia de global, que significa não ser de lugar nenhum. O único lugar habitável é o dinheiro.



Memória, poesia, sonho também ocupam a vitrine de badulaques. Com um agravante: descobriram o DNA da emoção. O poder seduz e vampiriza almas para atingir a essência. O real é apenas conseqüência. Se agora é possível dominar a medula virtual que comanda o espetáculo, então o circo todo está contaminado.



Essa situação nos remete a uma cena famosa, que consta no livro “Porta para o infinito”, do brasileiro (nascido no interior de São Paulo) Carlos Aranha, que assinava com o nome artístico Carlos Castaneda. O mestre Juan Matus ensinava a idéia de nagual, que engloba o incognoscível, e o tonal, que reúne tudo o que pode ser visto e entendido. Deus está no nagual? perguntou o aprendiz. Não, disse o bruxo, Deus também faz parte da mesa do tonal (e incluiu o saleiro no acervo de objetos na frente do aluno, para representar o que havia dito). Tudo o que imaginamos, tocamos, conhecemos está nesse círculo apontado por Don Juan. O resto é o Outro Lado que nos cerca. “Você está rodeado pelo infinito”, disse o professor para o aluno abismado.



Por um tempo (enquanto o autor vendia bastante) virou moda esculachar Castaneda, como se ele fosse o símbolo dessa enganação que tomou conta do imaginário e da cultura internacional. Clones verdadeiramente vigaristas aproveitaram, para o mal, as revelações desse antropólogo desconhecido, apesar de famoso. Por ser Aranha, ele pertencia a tradicional família paulista (com um ramo no Rio Grande do Sul). Aos 15 anos foi enviado para Buenos Aires e de lá para a Califórnia. Um dia, confessou que o tio, político de grande prestígio, seria candidato a presidente no Brasil. Mas Oswaldo Aranha, como se sabe, foi colocado de lado em favor do marechal Lott, que perdeu para Jânio Quadros.



Naturalizado americano, seguiu os conselhos do mestre e apagou a história pessoal. Aos poucos, juntando os cacos de sua biografia partida, a velha história de que teria nascido no Peru (sustentada pela revista Time nos anos 60), cai por terra. Confundido com um homônimo, devido ao Castaneda, o brasileiro Carlos facilmente virou hispânico, um equívoco comum na percepção ianque. O sobrenome Castaneda fazia parte de um código familiar e fora adotado pelo avô materno, que criou o neto numa fazenda.



O tempo encarregou-se de transformar seus livros, que enfeixam uma tese antropológica surpreendente, em mais um vetor de alienação e auto-ajuda. Tudo o que está revelado, como a sofisticada cultura de povos ancestrais dos continentes americanos, e o pulo dado quando houve a Conquista, acabou numa região de sombra.



Enjeitada pela universidade que a gerou, a obra de Carlos guarda desafios importantes para o futuro. Nela, há espaço para o nagual, um lugar que a avalanche descartável não atinge. Enquanto isso, ele é fonte (jamais citada) de inspiração para inúmeros filmes e livros. Pois quem leu Castaneda sabe de onde George Lucas tirou a idéia da Força e de todos os ensinamentos dos Jedis.

Foot notes: Crônica publicada no dia 6 de maio de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense
 

Comments

Add a new Comment





Novo Livro

  • O Refúgio do Príncipe (2006)
    O Refúgio do Príncipe
mais...

Artigo mais lido de hoje

Today's most-read post is:

A ESSÊNCIA DO TRABALHISMO DE OPOSIÇÃO

Outros Artigos

Friday, July 18
Friday, July 10
Friday, July 24
Friday, July 22
Friday, July 17
Friday, July 11
Friday, July 03
Friday, July 31
Friday, July 25
Friday, July 21