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O ESPLENDOR DE CADA GERAÇÃO
Published: Jun 14, 2007 - 06:23 PM
Nei Duclós
A evolução não existe: cada
pessoa parte do zero em direção ao seu destino. O que temos no acervo
cultural é a soma do esplendor de cada geração. Uma jamais comparável a
outra, formando, cada uma, realidades incomensuráveis. O que a
humanidade produz circunscrita nos limites do tempo atinge ciclicamente
o infinito. Nesse estágio, não existe superação à vista. É momento
único, que encanta o futuro. É o que acontece com Candeia, mestre da
música popular e nome, claro, fora do circuito atual da mediocridade
midiática no poder.
DIA DE GRAÇA - O disco maior
da música brasileira é Axé, de Antonio Candeia. Ali estão reunidas as
linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro já produziu. Com uma
diferença fundamental: tudo, desde as músicas baseadas em bordões de
rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas
clássicos como a traição conjugal, até a sofisticada obra-prima Ao povo
em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a denúncia,
a conscientização, a indignação embalada no talento de mestre. Candeia
usa a expressão do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.
Em Dia de graça, ele chama a atenção para a ilusão do Carnaval, a
necessidade de o povo se unir e se fortalecer para superar a miséria.
“Aí, então, jamais tu voltarás ao barracão”. Com melodias inesquecíveis
e letras primorosas como Pintura sem arte, ou o inacreditável Ouro
desça do seu trono (com Paulo Portela), o mestre deixa um legado de
grandeza sem sair da sua roda, sem abandonar o seu mundo, sem fazer a
mínima concessão.
Mas ele não se submete ao panfleto, apesar de bater o disco todo na
injustiça. Por isso o disco desemboca no deboche total, no magnífico
Beberrão (Aniceto do Império-Mulequinho), que tem rimas maravilhosas,
como pode-se ouvir na sucessão de frases que pontuam o bordão “você já
começa a beber”: no domingo de manhã/ com Manuel Bam-bam-bam/ não estás
com a cuca sã/ vai te deitar no divã. Correndo junto, existem ainda
outras jóias, como Vivo isolado do mundo (Alcides), que diz: “eu
vivia/isolado do mundo/ eu era um vaganbundo/ sem ter um amor/ hoje em
dia/ eu me regenerei/ sou um chefe de família/ com a mulher que eu
amei”. E ainda Ouço uma voz (sobre texto de Nelson Amorim), Vem
amenizar (com Waldir 59), Mil réis, Nova escola, O invocado
(Casquinha), Maria Madalena da Portela (Aniceto do Império). Peça para
ouvir Candeia. Ouça Candeia.
O disco está também reproduzido na coleção Mestres da MPB, da
Warner, projeto de Carlos Alberto Sion e Tárik de Souza e direção
técnica de Sérgio Bittencourt. Está na minha casa há muitos anos. Vivo
desse tipo de obra, dessa inspiração que nos alimenta, dessa base que
segura o Brasil que jamais entenderemos o quanto é imenso.
QUILOMBO
- A genial música que citei acima como obra-prima tem letra do
professor Nei Lopes, compositor de primeiro time, intelectual do Brasil
superior: “Quilombo/ pesquisou suas raízes/ dos momentos mais felizes/
da sua história singular/ e hoje/ vem mostrar sua pesquisa/ na ocasião
precisa/ em forma de arte popular/ há mais/ há mais de 40 mil anos
atrás...” Todo desfile de carnaval deveria ter uma representação dessa
música. Já a imaginei de mil formas. É absolutamente impressionante.
Quem não ouvir essa música em poucos dias me deve uma.
Um pequeno perfil do grande xará, tirado da rede
(http://www.samba-choro.com.br/artistas/neilopes): “Nei Lopes é autor e
intérprete de música popular, nasceu no subúrbio de Irajá, Rio de
Janeiro, RJ, em 9 de maio de 1942. Bacharel pela Faculdade Nacional de
Direito da antiga Universidade do Brasil, no início dos anos 70
abandonou a recém-iniciada carreira de advogado para dedicar-se à
música e à literatura. Compositor profissional desde 1972,
notabilizou-se principalmente pela parceria com Wilson Moreira e pela
obra gravada por quase todos os grandes intérpretes do samba
tradicional.
É escritor de vasta obra toda centrada na temática afro-brasileira e
compreendendo ensaios como "O Samba, na Realidade" (1981), "Bantos,
Malês e Identidade Negra" (1988), "O Negro no Rio de Janeiro e Sua
Tradição Musical" (1992), "Zé Kéti, O Samba Sem Senhor" (2000),
"Logunedé; santo menino que velho respeita"(2000), além de um
"Dicionário Banto do Brasil" (1996) e um volume de poemas "Incursões
sobre a Pele" , também de 1996, entre outras publicações. Desde 1995,
Nei trabalha na elaboração da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora
Africana", sua obra mais ambiciosa, a qual contempla centenas de
verbetes sobre o universo do samba e do choro.
QUINTANA
PARA SEMPRE - Candeia, Nei Lopes: insuperáveis. E geração aqui nada tem
a ver com idade. Tem a ver com convívio, com o verbo compartilhar:
repartir o privilégio de termos, numa mesma época, a nação, a terra, a
música, a poesia. Sem isso, nada somos. Sobre evolução, lembro Mario
Quintana. Ele tinha um baú cheio de poemas. Tiraram apenas os sonetos
para fazer seu primeiro livro. Depois, desencavaram os de verso livre.
Os críticos tiveram uma iluminação: ele evoluiu! Ao que o insuperável
poeta respondeu: “Jamais evoluí. Sempre fui eu mesmo.”

