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Pátria Yamandú
Published: May 13, 2005 - 11:57 AM
Fronteira é o limite que permite o acesso ao infinito. Não há pátria
sem fronteira, como não há cultura sem pátria. O alimento do gênio de
Yamandu Costa é a percepção dessa verdade. Ele tem de onde tirar: seu
violão carrega os frutos que os mestres da música brasileira arduamente
cultivaram ao longo dos séculos. Filho do Sul, ele sabe o quanto vale
uma bandeira fincada na linha divisória da nação. E a usa não como
cobertor, mas como viagem.Por isso dedicou sua noite do 4º Prêmio Visa de MPB ao ventre que o gerou. "Viva a música brasileira", disse ele. Não falamos aqui de raízes, falamos de colheita. A cultura de um povo é obra de seus mais iluminados artistas, que são abraçados pelo povo a quem pertencem. Com Yamandu, melhor falar em território: o andamento básico - trem de guerra metralhado por lanceiros a trote determinado - prepara o solo seguinte, gema luminosa que nenhum dedo desconhece.
Vestindo, na noite que o consagrou vencedor, bombacha marrom, ele lembrou que Radamés Gnatalli, o compositor erudito dos discos, concertos, cinemas e rádios, é gaúcho. Mas, como Baden Powell do Brasil afro, projeta
essa identidade para altas serras. Sua síntese múltipla aponta para Ernesto Nazareth, Villa Lobos, Tom Jobim, todos tratados com a rascante certeza da sonoridade nacional, expressão maior de uma civilização aberta, mutante, única.
Sua obra transforma o que está fora dela em música de elevador. Longe do experimentalismo vazio, ele se inspira no chão elevado da pátria agora em desuso. Os poderes que abriram as comportas para a indiferença estrangeira, hoje arrostam o olhar escandalizado da nação em pânico. O resgate só se fará se lembrarmos para que serve o Brasil, espaço definido a bala, por intermináveis batalhas.
Conheci Yamandu nessa noite de seis de junho de 2001 graças a alguém que sempre aponta na direção certa: Juarez Fonseca, jornalista, produtor musical sintonizado com a emergência de todos os talentos e autor de textos culturais primorosos - e um dos jurados do Prêmio Visa. Podemos dizer de Yamandu o que Juarez Fonseca disse da poesia: "Não é para qualquer um, mas é para todos."
Tocar violão como Yamandu não é para qualquer um. Mas é para todo o País sedento de energia, que hoje amarga a ressaca de seus equívocos e que, na crise, saberá ressurgir pela mão dos seus maiores artistas.
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