QUANDO A PÁTRIA FAZIA SENTIDO
maio 28th, 2005 | Por Nei Duclós | Categoria: MemóriasNei Duclós
Naquele tempo, éramos crianças apenas para nossas mães. Para nossos pais, éramos homens. Eu vestia uma avental branco, com um enorme tope azul no pescoço, calça curta, meia branca e sapato preto. Esse era o uniforme de quem ainda estava no jardim da infância. Não chamávamos nossa professora de tia, chamávamos nossas tias de tia. As palavras ocupavam um lugar seguro, assim como nosso lugar na fila. Formávamos para marchar na majestosa avenida Presidente Vargas, que se espraiava por um longo trajeto, toda embandeirada, com um obelisco pontificando bem no meio dela e ao som das marchas militares. Nosso coraçãozinho batia apressado.
AMOR – A grande emoção não era a Pátria, não era marchar, não era olhar para a bandeira. Não estávamos numa cena do patriotismo oficial. Nossa grande emoção, vestindo aquele avental branco lavado, passado, engomado, que fazia um arco ao nosso redor, não era marchar com nossos pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os braços dobrados, rígidos, imitando o gesto cívico das paradas de soldadinhos em movimento. Nada disso nos emocionava realmente, pois como nascemos numa pátria soberana, isso era assunto para os mais velhos.
A grande emoção era saber que minha mãe estava no meio do povo, levantando a cabeça para me ver, sorrindo o sorriso orgulhoso das mães, abanando para nós que não podíamos abanar de volta, pois estávamos compenetrados demais. Essa era a festa cívica: ficar compenetrado diante de uma mãe que expunha publicamente o seu grande amor por nós. Só então a pátria fazia sentido.
CENA – Agora compreendo inteiramente a cena favorita da minha infância, quando meu pai me levou, aos três anos de idade, para conhecer a casa nova que ele estava reformando para nós morar. Ele não me pegou na mão, pois eu sou um dos seus filhos homens. Ele abriu a porta do carro para eu entrar e lá eu fiquei ao lado dele. Depois desceu comigo do automóvel e visitamos a obra. Ele me mostrou todas as peças, comentando o trabalho dos operários que se dependuravam em imensas, longuíssimas escadas, que iam até o distante teto. Meu pai tornou-se maior, aos 18 anos, em plena revolução de outubro de 1930. Casou aos 28 anos e fez sua vida na era Vargas inteirinha.
Meu pai foi levado pelo exemplo do presidente Getúlio, que provou o quanto um homem podia fazer numa só vida. Os homens daquela época, antes de Getúlio, estavam confinados a um destino mesquinho. Meu pai nasceu pobre e trabalhou desde criança para sobreviver. Mas fez sua vida porque soube ousar. Não limitou-se ao emprego público, tão seguro, que segurou minha mãe até a a aposentadoria. Conheceram-se numa repartição e de lá formaram uma família. Os dois, lindos na sua juventude sem par, posaram para a eternidade aquela felicidade deslumbrante e serena. Meu pai palmilhou o país com seus sapatos branco e marrom, seu terno de linho branco, seu chapéu de feltro com borda desabada. Viveu no país que Getúlio reinventou. Era um cidadão que foi chamado à sua responsabilidade, assim como eu, na primeira infância, fui convocado para conhecer e aprovar a casa (o país em obras!) onde iríamos morar. Fui convocado para o que chamam hoje de cidadania.
Quando saí daquela visita, eu não era apenas o filho mimado da minha mãe. Eu já era um homem, pronto para mudar de vida, sob a proteção do pai no país soberano do presidente eleito (estávamos em 1951), Getúlio Vargas.