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TIA CECI E OS DISCOS VOADORES

Published: May 13, 2005 - 05:33 PM

Nei Duclós

O tempo confirmou duas profecias de Tia Ceci. "As estações não são mais as mesmas" dizia ela nos anos 50, caminhando a esmo pela casa e com o olhar fixo em algum lugar. "Isso é coisa dos russos e dos americanos, que ficam lançando bomba atômica". A interferência do homem nos eternos (pelo menos até essa data) ciclos do tempo, era uma novidade explícita demais para o resto dos mortais captarem. Morava conosco porque tinha saído de um casamento melancólico com o conhecido Sapato Perfumado, vendedor ambulante de calçados femininos.

Judiava de minha mãe colocando bem alto os tangos de Gardel transmitidos pela rádio da cidade fronteiriça, do outro lado do rio Uruguai, a General Madariega de Paso de Los Libres . "A Ceci não sabe o que faz comigo tocando essas músicas da minha juventude", suspirava Dona Rosinha. As duas eram parte de uma família de quatro irmãs (as outras eram Sara e Maria) e um irmão, o Tio Nico, dono de vasto restaurante no centro da cidade. Todos órfãos prematuros, descendiam, por parte de pai, de proprietários de terras empobrecidos, e de mãe, de imigrantes italianos, os Molinari, família que possuía prestigiada farmácia no centro da cidade. Tia Ceci tornara-se a vitrine da excentricidades de todos. Na vanguarda dos acontecimentos, era a primeira a sair difundindo as novidades mais secretas da casa para toda a vizinhança. Mas não estava isolada entre as que destoavam da normalidade. Tia Sarinha apaixonara-se por Perachi Barcellos, o futuro governador do Rio Grande do Sul no período militar e na época coronel da Brigada. "O Perachi é tão lindo!" exclamava ela nas noites conturbadas da véspera do Natal.

Tia Maria era professora e quando morreu descobriu-se no quarto do hotel onde morava uma pilha de vidros e caixas de papelão, todos com tampa: "Vou guardar", costumava dizer. "Um dia posso precisar". Mas quem levava a fama era Ceci. De camisolão pela casa, era o retrato daquelas personagens das antigas famílias, que ficavam no desvio da vida e acabavam dizendo o que provocava riso nos outros.

Outra percepção importante foi a dos discos voadores. " Os marcianos não existem", avisava. "São os russos e os americanos que fazem essas coisas e não contam para ninguém". Hoje, quando vejo os programas especiais do Discovery Channel, provando que os protótipos de projetos ultra-secretos da forças aéreas da Rússia e Estados Unidos são confundidos com obra de alienígenas pela população desinformada, não deixo de lembrá-la. Faço tardiamente justiça para aquela que abriu o olho diante do inusitado, e soube revelar a verdadeira natureza dessa armadilha: tratava-se da realidade pura e simples, que ficava oculta por falta de clareza dos contemporâneos. Os mistérios no fim sucumbiram diante do ceticismo de uma pessoa que sabia da sua origem italiana, mas fazia questão de ser a mais brasileira das criaturas. angue italiano que vivia lembrando Mussolini. Era por ter sido rodeada de mãe e tias cultivadoras de uvas e sotaque carregado que implicava com os Aliados da extinta II Guerra. Mas ocupava, na cena brasileira da minha casa - onde girava enorme plantel de personagens de todos os tipos - o papel que cabia aos agregados.


No fundo, pertencia No fundo, pertencia a uma outra família, a das que assumem totalmente sua humanidade, expondo-se a todos os riscos dessa situação. Por isso, não deixava dúvidas sobre suas preferências. Não gostava, por exemplo, de cozinhar. Quando era obrigada, cumpria a função, mas ao sair da cozinha respondia, para quem quisesse saber o cardápio: - Fiz arroz com bolinhos de arroz. Quem quiser, que coma.


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