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VIDA ADULTA

Published: Apr 15, 2008 - 11:59 AM

Nei Duclós



Ela começa de forma inesperada. Tomamos as principais decisões, as que influenciam o resto da vida, sem nos dar conta que já não somos crianças. É o que diz um professor, interpretado por Robert Redford, no seu filme “Leões e Cordeiros”, para o estudante que adotou uma postura crítica que beira a indiferença. Virar as costas agora para o problema político pode perpetuar o impasse e roer ainda mais a nação em decadência, diz o mestre. O aprendiz escuta e cai em si.



No sexto ano da guerra do Iraque, com milhares de mortos no passivo, e com uma crise econômica grave ameaçando explodir o consenso financeiro global, Hollywood começa a se livrar da censura. Ou pelo menos da forma obsessiva como encarava a luta contra o terror, desencadeado a partir de 11 de setembro de 2001. Somos coniventes, diz a jornalista interpretada por Meryl Streep, pois  sabíamos de todos os truques da manipulação. Assim mesmo, demos carta branca aos falcões. Incentivamos a barbárie destacando líderes oportunistas e predadores, que, sob o signo da revanche, inocularam o vírus mortal anti-democrático.



Esse despertar tardio (a invasão do Iraque já dura mais do que a Segunda Guerra, observa a jornalista) coincide com o fim da era Bush. E é confirmado por outros títulos, que abrem janelas no sufoco das posições irremovíveis. Estão mais disponíveis, pois saem do acanhado circuito dos cinemas e ganham as dimensões mais confortáveis das locadoras. “No vale das sombras”, de Paul Haggins, é sobre a culpa de guerreiros de décadas passadas, que estimularam a juventude a entrar num novo atoleiro. Hoje, paga-se um alto preço. A brutalidade no front substitui os ideais que justificavam a invasão, e a camaradagem interna se rompe pela implantação generalizada e não oficial da tortura.



O militar que tenta consolar Susan Sarandon, no papel da mãe do soldado vindo do front para ser assassinado em casa, recebe de volta um fuzilamento do olhar: é um dos momentos antológicos desta retomada do clássico papel da Sétima Arte, o de refletir consciências e influenciá-las pelo poder de sedução de seus protagonistas.



O terceiro filme que decreta o fim da falsa inocência é “Conduta de risco”, do veterano Sidney Pollack, com George Clooney, o ex-galã de televisão que virou artista de primeiro time do cinema adulto e, dentro dos limites da nação poderosa, radical.  O advogado corrupto é despertado pelo surto de honestidade que acomete seu colega (Paul Wilkinson), uma crise confundida com loucura. No mundo virado pelo avesso, a moral precisa ser encarcerada, por ser perigosa. Ela força a tomada de posição a partir do conhecimento.



O cinema é a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de verdade, como está voltando a acontecer no mais comercial dos países. A nós, cabe perguntar por que somos tão pobres em abordagens sérias. Nossos filmes, com honrosas exceções, estão confinados ao deboche, à miséria, à eterna mocidade, ao sexo fácil, à violência desmesurada. O máximo que alcançamos é a brutalidade geral, a memória imóvel, o relacionamento amoroso pautado pelo egoísmo. Às vezes, alguém acerta, mas é raro.



Precisamos fazer filmes adultos, sob pena de continuarmos calados, assistindo os outros. Amargamos a falta de representação de algo maior, fruto da convivência amadurecida pelo tempo e pela dor. Ainda somos um país que não se enxerga como deveria.
Foot notes: Crônica publicada no dia 1º de abril de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.
 

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