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MITCH MITCHELL: O SOM DO SONHADOR

O sonho não brotou, como querem os textos da memória fake da mídia, repetidos até a extrema exaustão, para manter no ar a intenção de assassiná-lo. O sonho foi sonhado (com perdão da necessária tautologia) por grandes artistas como Mitch Mitchell, baterista da Jimi Hendrix Experience (banda conhecida por todas as pessoas que permaneceram alertas numa época de sombras). Ele foi encontrado morto no dia 13 de novembro de 2008, aos 62 anos, vítima de causas naturais, ou seja, desconhecidas. Tinha acabado de fazer uma turnê por 18 cidades americanas.

Published: Nov 16, 2008 - 09:23 AM
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HÁ MEDO NO AR

Há medo no ar. A intimidade está sendo devassada. Ninguém se sente seguro. Querem saber tudo de você. Na caixa do supermercado, como alertou uma leitora desta revista, aquele que ocupa um lugar atrás na fila se debruça para saber RG, CIC, telefone e endereço de quem está sendo atendido. Mesmo sem ficar interessado nos dados do outro, essa pressão significa que há vontade de ocupar o espaço alheio.

Foot notes: Crônica publicada no dia 9 de novembro de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense.

Published: Nov 16, 2008 - 09:19 AM
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NADA MUDA

Para os longevos, fica estranho observar esse senhor provecto a dar opinião grave sobre a crise, já que ele mantém o tom e os argumentos da época em que nem era nascido. O garoto quarentão, vejam só, é um avô que lembra Tolstoi, mas sente saudades dos anos 80, que aconteceram hoje de manhã. A senhora que brincava de boneca na semana passada assume aquele ar de matrona empedernida, a desferir críticas, principalmente contra os homens, esses imprestáveis. O coronelzão de hoje jogava taco com outros moleques quando passei por determinada rua, há um mês. Isso sem falar nos sacerdotes aeróbicos, mães com cara de bebês, trintões cansados de guerra, aposentados de cabelos pretos que juram ser a fauna de uma idade avançada.

Foot notes: Crônica publicada dia 11/11/2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Nov 16, 2008 - 09:16 AM
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GUERRA E MEMÓRIA

Que lugar ocupa a guerra na história do Brasil? General Osorio e seu tempo, de José Antônio Severo é uma resposta a essa pergunta e uma pá de cal no equívoco de que o país seria fruto apenas de artimanhas e escapatórias, de espertezas políticas e diplomáticas e não da vontade expressa no campo de batalha. Trata-se do levantamento minucioso do envolvimento da nação brasileira numa luta de vida ou morte, ao longo de um período em que se definiu primeiro como Reino Unido, depois como Império e finalmente como República. Os protagonistas desse embate deixaram marcas profundas na terra e no imaginário da população em armas.

Foot notes: Texto de apresentação do livro "General Osorio e seu tempo", de José Antonio Severo (Editora Expressão, 848 pgs., R$ 89,00)

Published: Nov 16, 2008 - 09:13 AM
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CAÇA NO QUARTO CRESCENTE

A silenciosa imobilidade une cachorro e caça. As duas cabeças estão penduradas no mesmo olhar fixo. Uma espada invisível cruza as criaturas no instante decisivo da tarde, até agora muda. O fio reúne as atenções terminais da perseguição entre urtigas. O perdigueiro treme porque o tempo desanda e a impaciência começa a devorar sua certeza. Mais um segundo e a presa desatará o vôo rasteiro, que vibra abrindo um rasgo no campo.

Foot notes: Crônica publicada na última página da edição de novembro de 2008 da Revista Globo Rural.

Published: Nov 10, 2008 - 01:25 PM
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O DRAMA DE MARCOS

Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos do futebol.

Published: Nov 10, 2008 - 01:23 PM
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VIAGENS

Sou da terra firme. Daí, talvez, venha tanta atração pelo mar, território do movimento e da renovação constante e que nos traz nas ondas recados de náufragos esquecidos, ilhotas sem nome e arquipélagos que foram tragados pelas águas. Aguardo, quem sabe, notícias de Atlântida, onde deverei pousar, quando enfim chegar ao meu destino.

Foot notes: Crônica publicada no dia 4 de novembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Nov 04, 2008 - 10:06 PM
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O AVESSO DO EXÍLIO

O presidente deposto Mauro Jindre Calvano Castro encontrou no Uruguai seu exílio dourado. Sentia-se no Brasil, para desespero de sua assessoria, que não conseguia explicar direito a confusão que o estadista fazia entre a antiga província Cisplatina, do tempo do Império, e o estado soberano que agora o recebia. Achava que os uruguaios eram riograndenses mais urbanos e cultos e, o que era melhor, habitantes de uma civilização que há muito no Brasil tinha sido destruída. Toda vez que o Doutor Mauro Jindre entrava num café e via aqueles garçons com guardanapos longos pendurados no ante-braço, começava a cantar Noel Rosa.

Published: Nov 04, 2008 - 10:01 PM
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A CHINA É VIZINHA

Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, é do cineasta cult chinês, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produções. Esta, ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 2006. Nunca o povo chinês mostrado na tela foi tão brasileiro. O mineiro que se engaja nas demolições, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ingênua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio às ruínas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorzão do país se transformando junto com seus habitantes. Os subúrbios sujos, os edifícios encardidos, os terraços favelados, as salas aglomeradas, as pensões baratas, as conversas intermináveis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.

Published: Nov 04, 2008 - 09:59 PM
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ENCOSTO

Por décadas, não existia americano que não fosse tranqüilo, graças a um célebre livro de Graham Greene. Nem velha senhora que não fosse indigna, graças a Bertold Brecht. Morte, nos tempos áureos de Gabriel Garcia Marquez, era sempre anunciada , numa reprodução de massa que provocava a desconfiança de que todos os tituladores tinham surtado de vez. O pior era a cara de grande descoberta quando alguém “bolava” algo como “crônica de uma morte anunciada” para qualquer reportagem.

Foot notes: Crônica publicada no dia 28 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense

Published: Oct 28, 2008 - 03:30 PM
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IMOBILIDADE, REGRESSÃO E LOUCURA EM DURVAL DISCOS

A demolição da loja que só vendia vinil e se recusava a acompanhar os tempos, no final do cult Durval Discos (Anna Muylaert, 2003) é a destruição não apenas de um negócio obsoleto, ou de uma construção velha, mas de todo o imaginário do país que se transformava na época em que ocorre os eventos da narrativa (1995). Essa superestrutura, nascida e criada na época da ditadura e que, em tese, se contrapunha aos poderes políticos do sistema, exibiu sua fragilidade no momento em que os protagonistas que dela se alimentavam não amadureceram. O dono da loja é o paradigma dessa imobilidade, que se estende aos outros personagens.

Published: Oct 28, 2008 - 03:27 PM
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LEI E DESORDEM EM GOTHAM CITY

Batman, como Shane no mitológico final do grande faroeste de George Stevens, despede-se da inocência, que grita em vão seu nome. No fundo, a criança continuará fiel a ele, por mais que o persigam. Criança precisa de alguém a seu lado quando tudo está escuro. Os adultos é que se iludem achando que a claridade irá provar alguma coisa, vai lhes dar segurança. No escuro existem coisas que não dormem. Coringa, por exemplo. Heath Ledger detona. Sua atuação é misto de palhaço de circo e vilão de filme B de gangster. Sua força vem do entorno: ele está em todos os lugares e tudo pode. É o pânico que provoca que alimenta sua performance.

Published: Oct 28, 2008 - 03:24 PM
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BEM POR AÍ

Imagino que os analistas possam também ser vítimas desse sistema que entrega a favela depois de prometer a estação de esquis. Em todo o nicho de conhecimento há um quê de auto-ajuda. Quem acreditou na própria pregação, apostando no cassino pôdre, deve estar hoje solfejando os prejuízos, vendendo na baixa do Sapateiro para sair do raso da Catarina. A não ser que seja o tipo de especulador que só perde o que é dos outros, quando a bolha estoura. O mais engraçado é que a bolha só existe depois que explode. Antes, é chamada de mercado.

Foot notes: Crônica publicada no dia 21 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Oct 22, 2008 - 10:03 AM
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FANTASMAS

Não existem mais fantasmas. Acho que o motivo é o excesso de luzes firmes. Espíritos precisam de fagulha, chama de vela, crepitar de fogueira. Eles são atraídos pela indecisão do fogo entre brilho e sombra. Lembro das labaredas que começavam com folhas secas no crepúsculo no meio do mato. Elas migravam para gravetos e galhos e chegavam submissas, em forma de brasas, às toras, que duravam até alta madrugada. Enquanto havia claridade, permanecíamos acordados, atentos aos barulhos, inexplicáveis.

Foot notes: Crônica publicada no dia 14 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense

Published: Oct 15, 2008 - 08:16 AM
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O QUE É FILME NOIR?


Filme noir são tiros de mulher. A fragilidade como último recurso da trama, a sedução embaralhando a narrativa, a sensualidade apontada pelo pecado, as mechas que caem sobre os olhos, os batons tomando conta da tela, cílios mais longos do que a angústia, saltos pretos sob a pressão de passos limitados por saias coladas muito abaixo dos joelhos. São suspiros, sorrisos marotos, entrega e cobrança. São apontamentos de secretárias, jóias de amantes de milionários, de herdeiras que se apaixonam por matadores, de rostos com estudado espanto, mãos que chegam à boca compondo o gesto do pânico falso, ou até mesmo verdadeiro, quando enfim há sangue.

Published: Oct 15, 2008 - 08:14 AM
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BALCÃO DE PECADOS

Desatenção talvez seja o maior pecado do comércio. Nos pequenos estabelecimentos, a indiferença se manifesta pelo espírito de grupo, autocentrado e impermeável a interferências. Conversar entre si, deixando o cliente parado à espera de atendimento, cobrar no caixa sem olhar quem está pagando, varrer os pés da vítima que tenta consumir alguma coisa são alguns exemplos dessa expulsão involuntária promovida pelos que deveriam estender tapete vermelho. O pior é o olhar de “tu-por-aqui?” quando você chega na loja familiar e os proprietários estão ocupados em colocar a conversa em dia. Deveria haver um buraco onde o cliente pudesse se enfiar por alguns momentos, até passar o efeito devastador que a virada coletiva e silenciosa de cabeça em sua direção provoca, como a perguntar os motivos para a presença estranha em território sagrado.

Foot notes: Crônica publicada no dia 12 de outubro de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense

Published: Oct 13, 2008 - 04:22 PM
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NOIR

Soubeste do Nick, é, o Nicolau, aquele, lá da Dona Netti, assim com dois tês. Sabe que a Dona Netti se chamava Ambrosia? Quem deu o apelido, que pegou, foi o Nick. Ele era apaixonado por filme noir. Dizia que todos eram obras-primas. Vivia futucando arquivo morto para ver se encontrava alguma obra viva, que desse para projetar. É que ele tinha visto praticamente sozinho os filmes lá na adolescência dele. Como era um cara desse tamanho, fajutou uma carteira de estudante e entrava em sessão proibida para di menor. Sabia que ele queria fazer um festival desses filmes, quando tudo já tinha virado sucata? Ninguém sabia onde estavam. Nick achava que os filmes favoritos dele não cabiam em DVD. Tinha que ser no celulóide. Vê se pode.

Published: Oct 11, 2008 - 08:10 AM
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A ESSÊNCIA DO TRABALHISMO DE OPOSIÇÃO

Depois de Leonel Brizola (Caros Amigos Editora, 76 pgs., R$ 12,90), o novo livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos, está sintonizado, de maneira ainda mais ampla e fecunda, com o que, durante anos, publiquei aqui na militância trabalhista não partidária do Diário da Fonte. Trata-se de alta produção de pensamento. Vasconcellos é um teórico sério, contundente, certeiro, que se dá o luxo, proporcionado pela criatividade do trabalhismo, de usar todas as nuances da linguagem, sem se engessar no paga-pau colonizado dos jargões acadêmicos. De maneira clara, coloca os fundamentos do trabalhismo, sua importância histórica, sua função libertária e, portanto, sua atualidade depois da morte do líder.

Published: Oct 11, 2008 - 08:07 AM
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DÊ O CRÉDITO, GEORGE LUCAS

George Lucas é, com justa razão, tratado com a maior deferência pela imprensa e o mundo cinematográfico. Fez coisas incríveis e virou milionário graças ao seu talento e a noção que tem de mercado, ou seja, não se deixa levar por idéias prontas e com sua criatividade atrai milhões de pessoas em todo mundo, por décadas. Mas Lucas tem um defeito grave: não dá crédito para suas melhores sacadas. Em Star Wars, a essência é totalmente fundada nos livros de Carlos Castaneda. O Yoda como Don Juan, a Força como o nagual, o jedi como o guerreiro impecável, tudo conflui para Castaneda. Em Indiana Jones 4, a mesma coisa: o roteirista Lucas (a direção é de Steven Spielberg) tirou o principal de Erick Van Daniken, do best-seller Eram os Deus Astronautas. Alguém citou Daniken? Nem George Lucas.

Published: Oct 11, 2008 - 08:05 AM
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QUAL DEMOCRACIA?

Fala-se tanto em voto de cabresto como se fosse algo pertencente ao passado. Mas o voto útil, por exemplo, mais explícito no segundo turno, é o mesmo velho hábito das eleições antigas, só que atualizado por meio de argumentos, digamos, científicos. O engessamento da opinião, que existe a partir de conglomerados de pensamentos prontos para o uso (mas embalados num charme pseudofilosofante), é a grande tragédia do atual estágio político brasileiro. Reflete a imposição de proibições, mascaradas sob a ótica dos nichos.

Foot notes: Crônica publicada no dia 7 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Oct 11, 2008 - 08:00 AM
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NOSSO DINHEIRO

Recurso público não é propriedade de indivíduos ou empreendimentos. O dinheiro pertence ao Estado e a mais ninguém. Não é mais seu, meu ou nosso. Senão, qualquer um poderia retirar do cofre coletivo o que bem lhe aprouvesse. Pode-se argumentar: sim, mas esse montante pertencia à sociedade, que foi injustamente aliviada do que é seu e agora está à disposição da corrupção oficial. Pertenciam. Esse é o ponto. A sociedade outorga ao Estado a função de dispor do caixa.

Foot notes: Crônica publicada no dia 30 de setembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Sep 30, 2008 - 08:59 AM
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FONTES DA BOSSA

Não é que Caetano queira imitar João, Caetano é João, sem deixar de ser Caetano. É emocionante compartilhar a grandeza desse artista que nos brinda com a madura longevidade do seu talento inimitável. A seriedade, a competência e a inteligência como canta é uma questão cultural. Caetano é a ruptura que resgatou muita coisa da tradição, sem abrir mão da ruptura. É vanguarda o tempo todo, até mesmo quando escande as sílabas para homenagear a banda, os músicos, tornando sua voz um instrumento significativo, mas coadjuvante. Em Caetano, é o arranjo, a harmonia, a melodia que contam.

Published: Sep 30, 2008 - 08:56 AM
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O ADEUS DO INDOMÁVEL

Em Cool Hand Luke (Rebeldia Indomável, 1967), no papel de um presidiário que se insurge contra a cadeia, Paul Newman conseguiu seu passaporte para a eternidade. Agora que não fará mais filmes, e está sendo lembrado pelo seus papéis mais afetados, como o jogador de sinuca de A cor do dinheiro, o gigolô de Gata em teto de zinco quente, o soldado de Exodus ou o bandoleiro simpático de Butch Cassidy, é melhor regular a transmissão para esta obra prima de Stuart Rosenberg, com George Kennedy como coadjuvante, fazendo papel do veterano que protege o garoto recém chegado, Newman, capaz de comer 50 ovos! De condenado a anos de prisão por ter desmontado, bêbado, alguns parquímetros na calçada, ele vira o mito rebelde que busca a liberdade de qualquer jeito e que deixa o sistema carcerário num beco sem saída: ou mata o indomável ou sucumbe com ele.

Published: Sep 30, 2008 - 08:54 AM
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BILAC

Nepotismo, prostituição infantil, violência urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Notícias. Na virada do século 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crianças de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as famílias nas bocas do Senado e da Câmara, se insurge contra as quadrilhas em ação na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos últimos tempos, fruto da desconfiança dos autores em relação aos leitores.

Foot notes: Crônica publicada no dia 23 de setembro de 2008, no caderno Variedades do Diário Catarinense.

Published: Sep 30, 2008 - 08:48 AM
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ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como "mais do mesmo" dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.

Published: Sep 30, 2008 - 08:45 AM
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