News
LOURENÇO DIAFÉRIA: A CRÔNICA EM BRANCO
Lourenço Diaféria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de
2008, é um cronista clássico. Faz parte de uma linhagem criada por
escritores como ele, que não vieram do romance ou da poesia, como
Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse
gênero literário essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo
pátrio, e que é um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa
reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito
mais limitações do que o livre-pensar da crônica. Diaféria é da mesma
espécie de Rubem Braga, que não precisou voar para outras paragens e
fez da crônica seu ganha-pão e sua transcendência. Mas, ironia total,
ele foi marcado exatamente por uma crônica em branco, que não existiu,
mas foi publicada.
Published: Sep 20, 2008 - 05:57 PM
Read more about LOURENÇO DIAFÉRIA: A CRÔNICA EM BRANCO
(680 more word(s))
ARTE AFORA
Ela tinha o dom e procurava, no exercício das charadas, intensificar
essa sintonia fina entre trajetória pessoal e sonho, pela larga estrada
do verbo impresso. Os livros a acompanhavam desde menina, quando era
colocada, aos gritos, para debaixo da cama pela família assustada com
revolução nos difíceis anos 1920; e quando era a colegial brilhante que
completou a formação em Porto Alegre. A literatura fazia parte dela
quando, noiva, posava ao lado do elegante cônjuge de fino bigode e
olhar sedutor; e quando, mãe orgulhosa, levantava seus filhos recém
nascidos nos braços, como se fossem taças de muitas vitórias. A
consolava quando assumia o papel de preocupada vigilante dos estudos
que se espalhavam por toda a casa. Temperava sua conversa quando
cumpria a função de educada anfitriã na mesa farta, diante das visitas
e rodeada de seus rebentos.
Foot notes: Crônica publicada na revista Donna DC, do Diário Catarinense, do dia 22 de junho de 2008.
Published: Jul 10, 2008 - 11:47 AM
Read more about ARTE AFORA
(695 more word(s))
A RONDA DOS BICHOS E O CÉU DO VERÃO
Os bichos imprimem o desenho dos teus hábitos. Estão próximos demais
para serem ignorados. Os predadores domesticados te cercam, os
selvagens acasalados te espiam, os habitantes de paragens remotas te
sobrevoam. Penas, asas, patas, focinhos, olhos fundos a te enxergar a
alma. Eles estão conosco e repartem mais do que água e comida.
Partilham o planeta, que longe do tráfego, sabe ser quieto, majestoso,
indecifrado.
Foot notes: Texto publicado em 8 de Janeiro de 2004 no Diário da Fonte.
Published: Oct 25, 2007 - 01:47 PM
Read more about A RONDA DOS BICHOS E O CÉU DO VERÃO
(866 more word(s))
A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS
Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega dura
da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava tomar
bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas vezes,
era convidado a deixar a escola.
Published: Sep 15, 2007 - 09:42 PM
Read more about A QUALIDADE DOS CONTERRÂNEOS
(1127 more word(s))
RITO DE PASSAGEM
Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror
às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas
do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã
assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos,
o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias
da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática
cara à segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11/maio/2006 no
espaço Literário do Comunique-se).
Published: May 13, 2006 - 10:40 AM
Read more about RITO DE PASSAGEM
(1064 more word(s))
PLANTÃO DE AEROPORTO
O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era
rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a
intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de
visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que
ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A
viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter
iniciante, que jamais saíra de seu torrão. (Texto publicado dia 4/05/06
no espaço Literário do Comunique-se).
Published: May 09, 2006 - 04:53 PM
Read more about PLANTÃO DE AEROPORTO
(1297 more word(s))
A ARTE POR UM FIO
Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são
fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo
Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era
conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me
aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava
do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga
o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que
tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso
iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.(Texto
publicado no espaço Literário do Comunique-se em 27/04/2006).
Published: Apr 29, 2006 - 01:37 PM
Read more about A ARTE POR UM FIO
(1280 more word(s))
REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO
Hoje vejo consultores definindo a pauta de veículos em coma, dizendo
que não se pode voltar atrás, quando "loucos apaixonados" (esse é o
batismo do talento hoje) se reuniam em espaços normalmente apertados e
com pouco oxigênio, para fazer o que os leitores adoravam. É preciso
limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no
fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo
de um chefe de reportagem, um secretário, um diretor, um editor. (Texto
publicado no espaço Literário do Comunique-se, em 13/04/2006)
Published: Apr 20, 2006 - 02:33 PM
Read more about REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO
(1185 more word(s))
LAUDAS DA VIDA INTEIRA
As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 6/abril/2006).
Published: Apr 10, 2006 - 10:12 AM
Read more about LAUDAS DA VIDA INTEIRA
(1135 more word(s))
VÉSPERA DE LINGUAGEM
Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão
de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um
estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma
platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Foi nessa luta com
a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e
que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência,
que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes
que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um
só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em
papel datado. (Texto originalmente publicado no espaço Literário, do site Comunique-se, em 30/03/06).
Published: Mar 31, 2006 - 07:59 AM
Read more about VÉSPERA DE LINGUAGEM
(1002 more word(s))
A GEOGRAFIA DA MEMÓRIA
Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia,
os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior
na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por
isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe.
Published: Jan 27, 2006 - 02:35 PM
Read more about A GEOGRAFIA DA MEMÓRIA
(668 more word(s))
LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA
Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar
uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados.
Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo
para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava
já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá
em cima”, longe da tela e perto do projetor.(Crônica publicada na
edição número 2 da Revista Fronteira Livre, de Uruguaiana)
Published: Dec 19, 2005 - 01:11 PM
Read more about LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA
(798 more word(s))
O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO
Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do
horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro
Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues.
Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela
copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a
madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros
experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)
Published: Oct 07, 2005 - 03:11 PM
Read more about O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO
(986 more word(s))
QUANDO A PÁTRIA FAZIA SENTIDO
Nossa grande emoção, vestindo aquele avental branco lavado, passado,
engomado, que fazia um arco ao nosso redor, não era marchar com nossos
pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os
braços dobrados, rígidos, imitando o gesto cívico das paradas de
soldadinhos em movimento.
Published: May 28, 2005 - 09:09 PM
Read more about QUANDO A PÁTRIA FAZIA SENTIDO
(580 more word(s))
A VOLTA NA QUADRA
Quarteirões em quadrados perfeitos, ruas e calçadas largas: a
engenharia militar da República do Piratini engendrou a lógica na
geografia urbana da minha cidade. Foi essa lógica que me salvou numa
tarde sinistra, quando eu e meu irmão Luiz Carlos enfrentamos a fúria
de um morador da nossa rua. Nós dois não devíamos ultrapassar os cinco
anos de idade. Até hoje esse acontecimento mostra-se nítido em minha
memória, já que foi minha primeira experiência com o horror.
Published: May 25, 2005 - 09:22 PM
Read more about A VOLTA NA QUADRA
(888 more word(s))
QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO
Ele sabia se vestir. Ou melhor, sabia que seu terno, seu cabelo bem
puxado para trás, seu bigode fino, seu sapato de verniz, seu corpo
magro e firme tinham aquela postura que agradava às mulheres.
Published: May 23, 2005 - 10:22 AM
Read more about QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO
(796 more word(s))
TIA CECI E OS DISCOS VOADORES
"Os marcianos não existem", avisava. "São os russos e os americanos que
fazem essas coisas e não contam para ninguém". Hoje, quando vejo os
programas especiais do Discovery Channel, provando que os protótipos de
projetos ultra-secretos da forças aéreas da Rússia e Estados Unidos são
confundidos com obra de alienígenas pela população desinformada, não
deixo de lembrá-la.
Published: May 13, 2005 - 05:33 PM
Read more about TIA CECI E OS DISCOS VOADORES
(605 more word(s))
CINCO VEZES TARSO DE CASTRO
Migrante recém chegado em São Paulo em 1976, fiquei ligado na Ilustrada
editada por Tarso de Castro, jornalista que lia e gostava não só desde
a fase do Pasquim, mas do Panfleto - o Jornal do Homem da Rua. Lia o
Panfleto - uma das muitas obras da dupla Fortuna/Tarso - ainda em
Uruguaiana, RS, onde vivi até os 17 anos.
Published: May 13, 2005 - 05:32 PM
Read more about CINCO VEZES TARSO DE CASTRO
(1209 more word(s))
LONGA VIDA À UFRGS
Estudar na UFRGS era destino de todo o estudante gaúcho do interior.
Fora das suas faculdades principais - engenharia, medicina ou advocacia
- não havia salvação. As pessoas se dividiam entre as que passavam no
vestibular da UFRGS e o "resto".
Foot notes: (artigo publicado no Jornal da UFRGS em mar�o de 1999) I - SAINDO DA "ESCOLA"
Published: May 13, 2005 - 05:28 PM
Read more about LONGA VIDA À UFRGS
(1473 more word(s))
A CASA DO PESCADOR
Ele era o Seu Ortiz, de todos conhecido, pelo carisma pessoal que eu gostaria de ter herdado, e pela maneira franca de falar. Na Rodoviária, antes de eu partir para sempre do seu convívio , abraçou-me fortemente - o que nunca foi seu hábito - e de maneira demorada.
Published: May 13, 2005 - 05:24 PM
Read more about A CASA DO PESCADOR
(984 more word(s))

