Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são
fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo
Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era
conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me
aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava
do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga
o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que
tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso
iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.(Texto
publicado no espaço Literário do Comunique-se em 27/04/2006).
Nei Duclós
Tenho escutado horrores sobre o departamento de arte. Depois que o
acesso ao lápis virou lugar comum, todo mundo se transformou em
desenhista. A tecnologia colocou à disposição os mais completos
programas de diagramação e paginação, mas esqueceu de avisar que existe
um ofício por trás da ferramenta. Use o cepilho para aplainar uma tábua
e verás a coisa torta que você vai conseguir. Mas como bastam alguns
clics para enquadrar o texto em algo soberbo e colorido, então o
costume é desprezar aqueles que abriram mão das galerias para descobrir
nas letras, impressos, ilustrações, o equilíbrio necessário para que a
direção não nos fuzilasse no dia seguinte ao fechamento.
O editor de arte é o exercício pleno do poder. O título é de três
linhas, me dizia um deles, na Abril. Ele nem sequer prestava atenção no
redator. A primeira linha é de sete toques, a segunda é de onze e a
terceira é de oito. E te dava as costas. Tinha mais o que fazer. Essa
matéria está estourando e não temos tempo para colocar no tamanho. Vou
cortar pelo pé, diziam os diagramadores da Folha de S. Paulo. Por que
meu texto entrou pela metade? A foto estava boa, reclame com teu
editor. Desconfiado por natureza, o cara que senta atrás da prancheta e
agora na frente da tela com todos os recursos não faz amizade no
primeiro instante. Ele sabe que em qualquer pepino ele será o primeiro
suspeito. A entrevista terminou com uma pergunta. O original do revisor
está com visto e está certo. A que horas chega o artista?
Ele sabe também que dificilmente será lembrado pelos colegas que
prestam atenção apenas nas letrinhas. Esses fingidos cercam a arte para
conseguirem o máximo de resultados para reportagens toscas. Querem que
a arte salve a falta de informação ou de talento. Por isso o editor de
arte é uma estátua de Rodin num circo de cavalinhos. Todos rodam pelo
mundo afora, menos ele que sabe ser o guardião de um estuário, para
onde confluem todas as palavras. O mutismo também tem a ver com a
síndrome do palpite que assola as redações. Todos têm uma idéia genial
sobre o aproveitamento do troço que eles produzem, mas nada entendem de
identidade visual, de peso das imagens, de seqüência. E ainda ficam
horas para inventar algumas legendas e títulos, como se isso fosse o
parto da montanha mágica.
Quando os textos eram coisas impressas em papel sedoso e duro, e que
precisavam ser colados com grude comum numa grande folha, o diagrama
(ou algo que valha), aconteciam episódios impensáveis hoje. Os donos do
jornal que, deslumbrados, faziam o past-up da primeira edição. Era
vê-los gordinhos e engravatados brincando de fazer jornal. Deixa eles,
me dizia o diretor de redação, descobriram a pólvora, daqui a pouco
cansam. O diagramador que colocava parágrafos de ponta cabeça e
descobriram que ele era analfabeto. O poderoso que arrancava as notas
da Ilustrada xingando o autor do textículo, furioso com a falta de
conivência com a necessária auto-censura. O recado que foi posto sem
querer na maçaroca que o pobre diagramador formatava como coluna social
e que provocou um escândalo sem limites. O responsável pela arte não
lia as notas, claro. O que estava no bolo, publicava.
Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são
fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo
Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era
conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me
aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava
do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga
o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que
tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso
iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.
Fortuna inventou a diagramação enxuta que mais tarde os softwares
providenciaram. Fazia isso no olho e na mão, conceituando o tempo todo.
Eu fazia uma diagramação suíça, na linha reta, no Pasquim, me contava
ele em intermináveis papos depois de nossas reuniões de trabalho. Aí
vinha o Jaguar e dava uma esculhambada em cima, colocava o Sig, essas
coisas. Dava certo. O importante é que a arte obedeça aos fundamentos.
A partir disso você cria o que quiser. Senão vira carnaval, não
funciona. Ficava esperando minha reação. Eu só ouvia, imóvel. Ele
continuava: Por que um livro tem margens ao lado dos textos? me
perguntava. Para colocar o dedão, o polegar, para que a pessoa possa
segurar o livro sem atrapalhar a leitura, dizia Fortuna, leitor assíduo
de Gutemberg, o pai de todos. Fortuna era admirador dos argentinos que
vieram para o Rio mudar as artes gráficas no Brasil. Admirava seus
mestres e os citava sempre.
Na época em que trabalhamos juntos fortalecemos uma amizade que tinha
apenas sido ensaiada na época da Ilustrada (quando ele era o editor de
arte do Folhetim). Fortuna estava praticamente fora do mercado. Ninguém
importante (com a chave do cofre) telefonava para ele. Era o tempo das
barbaridades inspiradas pelo USA Today. E nas revistas, era costuma
entortar as fotos. Ninguém vira a cabeça de lado para ver ou ler, dizia
ele, que implicava com essa mania confundida com criatividade. A arte
não podia provocar torcicolo no leitor. E o olho humano é traiçoeiro,
dizia. Lemos da esquerda para a direita e não de cima para baixo, então
por que colocar título na vertical? Era moda.
A moda agora é o flash, a porção cineasta da editoria de arte. Você
visita o site e fica esperando o artista fazer suas demonstrações.
Prefiro o fundo creme, a imagem fixa e limpa, o texto preto no branco,
a elegância do maranhense Fortuna, que se foi prematuramente, no auge
dos seus projetos. Fui avisado com algumas horas de atraso, pois os
acontecimentos se atropelaram. Peguei o metrô (trabalhava na avenida
Paulista) e desci no cemitério da Consolação.
Custei a descobrir o local. Todos já tinham ido embora. O sol forte
batia nas flores, nos recados, nas saudades, nas orações recém feitas.
Eu estava lá, no meio de um mar de sepulturas, diante de um jazigo
oculto, desconfortável com a presença do sol quase a pino. O choro veio
descontrolado, porque eu sabia que sentiria falta daquela voz ao
telefone, me dizendo tudo o que eu precisava saber sobre imprensa,
arte, diagramação, redação, sacanagens do mercado e tudo o mais.
Fortuna era o conferencista de uma amizade preciosa, a pessoa que sabia
tudo e que representa não só seus pares (todos seus discípulos de uma
forma ou outra), mas principalmente os veteranos que fizeram História e
para os quais temos uma dívida impagável.
Jamais saberemos retribuir o tesouro que ele nos colocou nas mãos e que
se espalha por muitos ofícios, entre os quais o de magnífico cartunista
e desenhista, texto admirável de humor ultra-sofisticado. No Correio da
Manhã dos anos 50, criou duas páginas de humor para onde acorreram os
grandes cartunistas que até hoje dão as cartas (e debochava das seções
que publicavam as piadas e colocavam em cima "Humor"; é para avisar,
dizia, ele, em riso convulso). Ao lado de Tarso de Castro, criou o
Panfleto, o Pasquim, Folhetim, a nova Careta, entre muitos outros
veículos. Fez misérias com seu Diz, logotipo, quando colocava a
publicidade no seu devido lugar, sem os salamaleques de hoje.
Poucas pessoas compareceram ao lançamento do seu livro Acho tudo muito
estranho. Fortuna não era da moda. Tinha atingido a eternidade.