
Ele era o Seu Ortiz, de todos conhecido, pelo carisma pessoal que eu gostaria de ter herdado, e pela maneira franca de falar. Na Rodoviária, antes de eu partir para sempre do seu convívio , abraçou-me fortemente - o que nunca foi seu hábito - e de maneira demorada.
Nei Duclós
A casa que explodiu em Uruguaiana às nove e meia da noite de quarta-feira, 30, é exatamente a casa que um dia pertenceu aos meus pais. Pelas informações que tardiamente ouvi , o estoque de fogos situava-se precisamente no quarto deles. A brutal coincidência despertou-me do longo distanciamento em relação à minha cidade, um exílio pessoal que vem desde 1981, quando vi meu pai pela última vez.
Ele era o Seu Ortiz, de todos conhecido, pelo carisma pessoal que eu gostaria de ter herdado, e pela maneira franca de falar. Na Rodoviária, antes de eu partir para sempre do seu convívio , abraçou-me fortemente - o que nunca foi seu hábito - e de maneira demorada. Esse abraço ainda está comigo e por isso talvez, não voltei lá, para não passar pela dor de não vê-lo novamente.
Vê-lo
no fim da tarde, sentado em frente da casa, na calçada que agora é
ruína. Para entender direito, é preciso um pouco de geografia urbana. A
casa ficava nos fundos de uma garagem - a mesma que aparece agora
bombardeada nas fotos. Uma porta ao lado dessa garagem dava para um
corredor estreito, que desembocava numa sala, que continuava numa copa,
que ficava ao lado de uma cozinha, que antecedia mais um corredor, que
dava acesso aos quartos. Na última peça, situava-se a minha mobília,
que era a mesma desde os meus três anos de idade e tinha vindo de uma
outra casa, a da minha infância.
A garagem era outra história. Dava direto na calçada e abrigou por muitos anos a Casa do Pescador, sonho que meu pai um dia realizou. Pescador de carteirinha, ele ensinou os filhos as durezas do mato, a necessidade de se virar por conta própria, o valor da iniciativa. Nos acampamentos, testava nossa bravura. Um dia deixou um trinta e oito na minha frente, em cima de uma mesa tosca improvisada e avisou: "Vou até a cidade. Se alguém aparecer, manda bala." Lembro que fiquei horas olhando o revólver, sem coragem de tocá-lo. Quando voltou, vendo que tudo estava em ordem, riu satisfeito. E comentava, exagerado:
-O guri, sozinho, deu conta do recado.A Casa do Pescador foi minha primeira ocupação profissional. Atendia o balcão, desde os 14 anos, vendendo, primeiro, anzóis, caniços, redes e linhas. Mais tarde, por força do câmbio, de tudo: café solúvel, garrafa térmica, tesouras, etc. Com o dinheiro da loja, ele conseguiu comprar a casa do fundos. O ponto vingou, encerrando assim a fase terrível dos aluguéis que tinha nos atormentado por alguns anos. Esse foi um dos seus maiores orgulhos: voltar a ter uma casa própria, por força de uma idéia, de um empreendimento bem sucedido.
Mas o câmbio um dia virou e ele acabou fechando as portas. Alugou a garagem e ficou vivendo de aposentadoria. Depois de morrer, em 1985, seu vizinho e compadre, o alfaiate Paulo Cezimbra, resolveu fazer uma homenagem . Fez da sua alfaiataria, que ficava no imóvel ao lado, uma outra Casa do Pescador, a mesma que desabou no dia 30, matando sua esposa, Dona Tita, comadre dos meus pais. Do cogumelo de fogo, safou-se Ubirajara Raffo Constant, um dos poetas de Uruguaiana que teve a coragem de ficar. Sobrevivente, é dele a frase lapidar do episódio: "Agradeço a Jesus Cristo e a meu pai , que me criou macho". O pai dele foi amigo e vizinho de meu pai.
Outra frase importante é a do próprio Cezimbra, companheiro de pescarias que enviuvou precocemente e que hoje reparte a dor com seus filhos:
-Esta é uma cidade sem lei.Fiquei sabendo que o ponto onde meu pai refez sua vida hoje é chamado de Baixada Fluminense. Toda a fronteira é a vitrine de um país. Não consigo entender como é possível transformar a parte comercial de uma cidade modelo, que foi idealizada por Domingos José de Almeida, o Ministro da República do Piratini, na Guerra dos Farrapos, situada estrategicamente bem no miolo do Mercosul, numa espécie de mercado a céu aberto, exposto ao caos e à tragédia. A casa tinha sido vendida, depois da morte do meu pai. Virou depósito de fogos de artifício, transformou-se em calamidade pública.
Ouvi de meu irmão a pergunta:
Talvez
nossa herança espiritual, aquilo que nos foi legado durante toda uma
vida, esteja abandonada, maltratada, pisada. Talvez nosso passado - do
qual afastei-me pela dor de ter perdido meus pais - tenha dado um
aviso. Por que lutaram tanto nossos pais, em tantas décadas de vida
brasileira? O que restou de tudo o que eles construíram, além de carne,
sangue e sonho? O que diz essa memória que, inconformada, explode em
horário nobre, para todo o País, como se quisesse ralhar conosco? O que
impede Uruguaiana de cumprir totalmente sua vocação comercial e
empreendedora, a mesma que alimenta seus filhos e atrai gente de toda
parte? Por que aquele quarteirão, que gerou tantos recursos, não foi
remodelado, não cresceu, não ficou mais adequado à grande demanda de
compradores da Argentina e do Uruguai? Por que casas, calçadas e ruas
permaneceram idênticas tantos anos?
A explosão da casa paterna e dos prédios vizinhos nos obriga a fazer mais perguntas. Qual cenário a riqueza do Mercosul vai gerar a partir de agora? Que tipo de empresário, de consumidor, de autoridade pública surgirá desses escombros?
O estrondo ouviu-se a dois mil quilômetros. Na sexta-feira, dia 2, eu estava sentado na sala, recém refeito de uma conjuntivite alérgica e portanto, apto a voltar ao noticiário. Abri o jornal. A Casa do Pescador tinha explodido na virada de dezembro. O quadro de Cristo voou da parede e foi cair nos braços do poeta. Quem mais morreu debaixo de toda aquela pedra?
Nei Duclós