Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia,
os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior
na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por
isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe.
Nei Duclós
O dia claro de abril, cheio de contrastes de cores, luz e sombra, com
vento temperado a velocidade amena, me levam, pela lembrança, rua
abaixo até o rio, o pampa, a estrada. As pedras sendo esmagadas pelo
tênis, o pé descalço, o sapato velho. A companhia dos camaradas, junto
aos quais nada podemos temer, nem os caras da outra zona, nem os
cachorros, os loucos, as velhas, os muros. Íamos em direção ao grupo de
umbus, árvore de madeira mole e farta sombra, refresco no deserto da
fronteira.
Agora, rodeado de montanhas e rente ao mar, revejo a sensação daquela
vida que continua lá, gravada para sempre na geografia da memória,
arquivo vivo de uma esperança que nos liga em algo maior, porque a paz
de espírito é a certeza na vida eterna. Dia bom para passeio, para ler
na rede, para sonhar e dizer, como Churchill em plena Segunda Guerra,
antes de dormir: ora, danem-se todos. O mundo vai mal? O universo não
se importa. O que é uma canelada diante da fornalha das estrelas?
Filosofia barata, dirão, mas são esses pensamentos, embalados por
leituras melhores do que conseguimos produzir, que fazem nosso dia e
nos levam para longe, aqui mesmo, onde escolhemos viver.
DESPEDIDAS - Alguém nos leva até a plataforma. Damos um longo abraço e
subimos no ônibus. Da janela, vemos a pessoa acenando enquanto damos ré
até a reta que nos leva dali para nunca mais voltar. Lindolf Bell pega
a pedra pintada de muitas cores, dá um suspiro e diz: Essa é a pedra
Açu-açu, ela vai te acompanhar, vai te dar sorte. Estávamos em
Blumenau, onde lançamos (ninguém mais lembra isso oficialmente) o
Jornal de Santa Catarina.
Decidi que era um escândalo que um jornal local não fizesse uma ponte
com o grande poeta dos versos ditos na praça, na rua e que vivia de sua
galeria de arte junto à esposa Elke Hering Bell. Convidei-o para
visitar a redação e a escrever para o jornal. Ele ficou entusiasmado,
generoso como era. Conseguiu trazer Hair para a conservadoríssima
cidade em 1971 e quando todo mundo surgiu nu no palco foi o primeiro a
levantar-se e a aplaudir. Lindolf Bell é inventor de uma modernidade
que ainda nos faz falta. Nunca mais vi o poeta depois que ele me
presenteou com aquela pedra da sorte. Morreu na década seguinte e hoje
é lembrado pelos seus conterrâneos com carinho e admiração.
Convivi com as melhores cabeças, porque tive sorte nesta minha passagem
pela terra. Tarso de Castro me encontra na rua e eu abraço seu corpo
muito magro. Senti seus ossos quando apertei-o, ele outrora tão
influente e temido e agora ali, exangue, sofrendo longo martírio de
saúde. Vi seu rosto encolhido depois, no velório, antes de partir para
ser enterrado em Passo Fundo. Quando vivemos um dia claro de outono,
devemos lembrar o que nos brindaram com sua presença e nos fizeram
melhores do que somos. As pedras do rio ringem quando colocamos nela
nossos sapatos de jornada. É dia de pescar.
SONO - Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta
vazia, os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há
de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita
solidão. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém
nos atrapalhe. Ficamos imaginando o futuro, sem saber que esse momento,
o da pescaria, será nossa memória eterna. Onde estivermos, no meio do
mais frenético mundo, lá estará nosso coração diante de um peixe que
não morde a isca, de uma companhia que não chega, de alguém que passa
ao longe.
Chegamos em casa exaustos e despencamos na cama embaixo da janela que
dá para a rua. Já é tarde. Passa uma turma e ouço minha própria voz
dando as cartas. Sou o que imagino, perdido na última rua de asfalto,
enquanto no quarto ao lado meus pais dormem o sono da eternidade.