Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em
personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como
aconteceu num desses dias em Belíssima, em que Claudia Abreu enfrentou
a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua
impotência não foi anunciada em expressões de dor ou raiva ou
desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em
camadas os conflitos que a levaram para aquela situação.
Nei Duclós
Claudia Abreu não precisa das mãos, nem de sotaques, nem de máscaras.
Ela não grita, não faz pose, não se agiganta. Precisa apenas do que tem
e não é muito: uma beleza discreta, uma presença pequena, uma voz
comum. Atuar nem sempre significa encarnar personas, transmutar-se em
personagens marcantes. Basta ficar de rosto inteiro na tela, como
aconteceu num desses dias em Belíssima, em que Claudia Abreu enfrentou
a ira da cunhada. Ela estava impotente diante do drama. Mas sua
impotência não foi anunciada em expressões de dor ou raiva ou
desencanto. Sem mover uma linha do rosto, ela simplesmente vestiu em
camadas os conflitos que a levaram para aquela situação.
Sua cara se desmanchou, não em lágrimas, porque os olhos estavam secos.
O queixo não tremeu, o nariz não fungou. Ela foi se transformando numa
ruína humana. Conseguiu isso apenas trabalhando a intenção. Seu
sofrimento era sua impossibilidade de ação, a dúvida de que estivesse
fazendo o certo para proteger os filhos, o remorso frente à evidência.
São como peles transparentes que vão se superpondo no rosto desfigurado
pelas emoções em transe.
Ela não podia chorar, nem gritar, nem pedir perdão. Não podia dizer o
verdadeiro motivo da sua decisão. Não podia prometer, nem jurar, nem
implorar. Ela estava presa na armadilha da farsa que precisou assumir.
Sua imobilidade é a transparência total. Sem músculos da face que a
apoiassem, sem rugas significativas na testa, sem brilho nos olhos, ela
ficou ali por incontáveis segundos, eternos enquanto víamos não a
Vitória que se decompunha, mas a atriz que atingia o estado de arte.
No minuto seguinte ela chorou e fez tudo a que tinha direito. Mas
naquele momento em que ficou amarrada à chantagem que a prendia, em que
correntes opostas se jogavam no paredão de uma aparente submissão e
indiferença, sua humanidade chegou à tona por meio desse desenho que
Claudia compôs como tragédia, num folhetim que é pura apelação e
falsidade.
Tem ator ruim demais ao redor de Claudia Abreu. Os caricatos, os
anódinos, as potrancas, as bibelôs, os abestalhados. Uma galeria pobre
para o ofício da interpretação. Mas não é isso que transforma Claudia
num destaque. Com qualquer elenco, ele faria o mesmo. O que a faz
intensa e maior é essa capacidade de reduzir-se à essência da
profissão, que nada mais é do que trabalhar o que existe de
subterrâneo, para que a aparência, o que é visto, convença, pela força
da sinceridade tomada emprestada por uma técnica.
Não é para qualquer um. Pois existem divas, estrelas, damas, promessas,
revelações. Mas poucas pessoas como Claudia Abreu, que interpreta
confiando na inteligência do espectador, que aposta no sucesso do seu
recado. E que cruza o tempo mau como se ela fosse a boa notícia de uma
catástrofe chegando ao fim.