
Nei Duclós
Faço parte de uma geração de pessoas gentis, formada na refrega
dura da vida estudantil onde não havia colher de chá, onde bastava
tomar bomba numa só matéria para repetir de ano, e se repetisse duas
vezes, era convidado a deixar a escola. Meus pares são pessoas como
Fernando Pereira da Silva Filho, Carlos Alberto Martins Bastos, Solon
Sastre, Rubens Lenar Güez, Gilberto Duro Gick, Lino Antonio Ulharuso,
Vicente Torre, Luiz Carlos Etcheverria, Miguel Ramos, entre tantos
outros. Todos, claro, de Uruguaiana.
O TREM DEMOCRÁTICO - No seu belo best-seller, que tem o nome de Como é longe Uruguaiana,
meu amigo (e colega de aula do meu irmão Luiz Carlos) Fernando Pereira
da Silva Filho me envia um exemplar onde revela seu texto limpo, cheio
de detalhes, que mistura história familiar com a história da cidade.
Fernando resgata, entre vários eventos maravilhosos, uma viagem de
trem, esse transporte que foi sucateado criminosamente pelo regime que
ainda está no poder, o instaurado em 1964.
O hoje Dr. Fernando, dentista renomado, filho da grande amiga da
minha mãe, Dona Leda, sua colega de trabalho no Centro de Saúde, dá um
banho de memória e criação literária, ao contar cada curva daquela
estrada inesquecível, cada tipo que viajava naqueles trens puxados por
uma esforçada Maria Fumaça, todas as peripécias de viagens que marcaram
vidas, pois somos dos confins do Brasil, ou melhor, do seu início, e
saíamos às cinco da manhã para chegar, com sorte, a Porto Alegre, às
sete da manhã seguinte.
Chega ao requinte de descrever o vagão restaurante, esse luxo que
não existe mais nas viagens brasileiras, onde havia confraternização,
alegria e convívios definitivos. Fernando descreve o cuidado que todos
deviam ter ao tentar tomar café enquanto o trem sacudia, a distribuição
para o vizinho do pacote de bolacha Maria e a presença fulgurante do
chefe do trem. Como diz Fernando, a “autoridade máxima da composição,
com poderes de mando irrestritos dentro de todo aquele território, que
percorria vagões, vestindo sua farda azul, com algumas insígnias e
botões dourados bem polidos e a cabeça coberta por um indefectível
quepe da mesma cor”.
Fernando tem um estilo direto, saboroso, que recria cenas
aparentemente banais, que é o segredo de todo escritor de verdade.
Sabemos o quanto custa chegar a esse resultado, sem pretensões, que
torna-se poético sem jamais distrair-se da narração. Sua história corre
pela linha como uma composição que nos carrega para longe, para a
alegria das descobertas de um tempo que ainda está conosco, morando
como um parente próximo, e amado porque jamais superado na sua grandeza.
DESTILARIA
- Perto da minha casa morava, e ainda mora, a grande família dos
Etcheverria. O patriarca era o primeiro funcionário da Destilaria,
marco da introdução do petróleo no Brasil. Pois a primeira empresa que
cuidou do petróleo em território brasileiro foi a que é hoje a
Ipiranga. Um grupo de empresários começou a importar óleo cru de Buenos
Aires e a fazer o refino. Mais tarde, com as mudanças da legislação e
da política, e devido a uma estratégia com mais chances de sucesso, a
empresa transferiu-se para Rio Grande, onde hoje tem sua sede. Luiz
Carlos Etcheverria era um dos amigos daquela rua. Muito magro, com
calções até os joelhos, era um inventor de palavras. Tinha mais de 15
irmãos. Hoje ele é professor aposentado e reparte conosco a glória de
ter fundado o Esporte Clube Guarani, um time de rua que tem mais de 40
anos. A duas quadras, morava (numa casa que continua com sua família) o
meu amigo Cabeto Bastos, o mais elegante, culto e gentil exemplar desta
geração.
Ele faz parte de uma das famílias, por muitas décadas, proprietárias
do Grupo Ipiranga. Íamos ao colégio Romaguera Correa no mesmo passo.
Usávamos avental branco, um grande tope no pescoço, com nossas
lancheiras a tiracolo. Ele quase caiu para trás quando o presenteei com
um convite de formatura do pré-primário. “Como conseguiste guardar isso
tanto tempo?” perguntou. Eu não soube responder.
SENTINELA
- Na minha recente viagem à cidade, tive a felicidade de encontrar no
tradicional Hotel Glória o Sólon Sastre, um apaixonado pela obra de
Fulvio Penacchi, o maior pintor do Grupo Santa Helena e que tem suas
obras primas na catedral Santana da nossa cidade. Comecei então pensar
nas pessoas daqueles idos dos anos 50 e 60 e descobri que
compartilhamos a mesma formação ao mesmo tempo rígida e amorosa dos
nossos pais, do ensino estimulante das escolas públicas e privadas, do
debate aberto e franco das idéias, que jamais deixaram quaisquer
resquícios de inimizade, isso que atravessamos longa e penosa ditadura.
Dei-me conta então que fazemos parte de uma humanidade que procura,
hoje, transmitir a todos o que aprendemos, dividir a alegria da
conversa, somar esperanças e sentir a genuína alegria no reencontro.
Pena que alguns já partiram, como o príncipe Gilberto Gick, aquele que
jamais deveria ter nos deixado, pelo tanto que poderia fazer, pela
enormidade do espírito, pela inteligência infinita e pela ousadia de
chegar sempre na frente.
Gilberto era a nossa vanguarda e, como todo sinuelo, sofreu o vento
minuano dos tiros na primeira hora, quando ainda estávamos dormindo.
Quando acordamos, estávamos desamparados pela perda. Mas o texto, que é
sempre trabalho penoso pelo desafio e gratificante pelos resultados, é
a poção mágica que traz todo mundo de volta e nos coloca ao redor do
fogo.
Somos de Uruguaiana, a cidade-sentinela. Quem vem de outro país nos
cumprimenta em primeiro lugar. Respondemos com o abraço das boas
vindas, com a aceitação das diferenças, com a certeza de que nascemos
para dar o exemplo, já que somos fruto do exemplo maior da geração – e
que geração! – que nos precedeu. A geração que nos deu os melhores, a
que fundou a nação a partir do nada, e que nenhum respeito ou
agradecimento, por maiores que sejam, jamais poderão retribuir tudo o
que nos deram.
RETORNO - Fernando Pereira da
Silva Filho me envia a seguinte a mensagem: "Meu prezado Nei - Os
amigos são sempre benevolentes. Grato por ter me colocado no mundo. Sei
dos meus limites mas pretendo ir alargando-os, antes tarde do que
nunca. Apesar de levar uma vida de paulista em Uruguaiana ( dá para
acreditar?) pelos meus trabalhos ( tenho três frentes para encarar por
dia) tenho me dedicado aos escritos. Sem medo de errar digo que eles
são o meu prazer, o meu lazer e minha terapia para enfrentar esse mundo
de hoje. Um abraço fraterno e obrigado pelo estímulo. Leio sempre tuas
mensagens e vejo que apesar dos tempos não te desligastes de nossa
terra. Quem escreve com o coração não se trai nunca".