Idéias fixas jamais cedem. Uma é a de que o Sul precisa ser um país à
parte, já que o resto do Brasil não teve a “sorte” de ser colonizado
por povos considerados mais nobres. Ou que devemos prestar tributo
apenas aos ascendentes europeus, esquecendo os índios, que ensinaram a
sobrevivência aos invasores, e com eles se confundiram, como notam
Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro.
Nei Duclós
Idéias fixas jamais cedem. Uma é a de que o Sul precisa ser um país
à parte, já que o resto do Brasil não teve a “sorte” de ser colonizado
por povos considerados mais nobres. Ou que devemos prestar tributo
apenas aos ascendentes europeus, esquecendo os índios, que ensinaram a
sobrevivência aos invasores, e com eles se confundiram, como notam
Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro.
Um dia reagi às queixas dos paulistas sobre os nordestinos. Um
empresário em Piracicaba colocava a causa de todos os males nas pessoas
vindas de fora para trabalhar na construção civil. Agora elas roubam,
matam e vivem nas favelas que antes não existiam, dizia o empresário.
Perguntei: vieram de livre espontânea vontade? Por que acorreram em
massa para cá? Não, foram chamados e conduzidos até o canteiro de obras.
Teria havido algum planejamento para aqueles trabalhadores? Uma
agenda social e econômica para absorver os novos contingentes?
Respondeu também que não. Você queria então que eles simplesmente
voltassem? No momento em que o lugar lhes vira as costas, a
responsabilidade não deveria ser repartida?
O hábito de culpar os adventícios faz parte do obscurantismo e está
mais presente do que nunca. Vimos em “Zorba, o Grego”, o clássico de
Michael Cacoyannis, como as pessoas da ilha de Creta se justificavam ao
pilhar os pertences da francesa moribunda. Ela não era “daqui”, diziam,
e os bens ficariam nas mãos do governo. Isso seria uma injustiça, pois
os habitantes do lugar eram pobres e precisavam do saque. A xenofobia
pode levar ao crime se ninguém despertar a tempo para o perigo.
As idéias fixas tornam nebulosa a percepção sobre eventos
importantes. Abandoná-las pode gerar boas surpresas. Guga, por exemplo,
que encerra sua carreira brilhante, oferece uma boa oportunidade de
exercermos a liberdade do olhar. Sem tirar o mérito de que ele é soma e
síntese da cidade que o gerou, Guga pode ser identificado com o fim do
isolamento de Florianópolis e a inauguração de uma outra realidade.
Tudo mudou depois que Guga ganhou o primeiro Garros. E mudou para
sempre e de forma radical agora que ele abandona oficialmente as
quadras.
Sua missão extrapola a afirmação dos limites que o geraram. É,
antes, uma superação. Guga é ponte entre ilha e continente, é o amor
por este lugar, para onde vieram todos, prisioneiros do encantamento da
paisagem e do povo, e do seu arauto de raquete em punho. Esse amor
ajudou a transformar Desterro e a lança para o futuro. Mais gente,
novas soluções, talvez até a implantação dos velozes Trams, os bondes
super modernos, que correm velozes pelas ruas de Amsterdam.
Não há motivos para achar que cada recanto deva impor suas
qualidades por exclusão. Ninguém é melhor por motivo de raça ou origem,
mas todos são ótimos por pertencerem a um projeto maior, complicado,
contraditório e por isso mesmo gratificante. O que importa é se situar
acima das divisões internas. Kirk Douglas chamava-se Issur Danielovitch
Demsky. Era o mais americano dos atores. Aqui, 200 anos de permanência
no país não bastam. Quantos séculos ainda são necessários para assumir
a “nova” nacionalidade?
Tenha olho puxado, cabelo preto ou cor de cenoura, qualquer
indivíduo do país, que vai para o Exterior, é identificado logo. É o
jeito de andar, de falar, de viver. É isso o que somos, brasileiros.
Puríssimos, como o sorriso de Guga, que navega acima de todas as águas.
Foot notes: Crônica publicada no dia 22 de abril de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.