A premiada série da HBO Angels in America impressiona pelo
impacto visual, a performance dos atores, a crueza e qualidade dos
diálogos, a intensidade do desespero, a abordagem de temas aterradores
e a aposta na esperança em pleno Apocalipse. É o que a arte americana
tem a nos oferecer.
Nei Duclós
A premiada série da HBO Angels in America
impressiona pelo impacto visual, a performance dos atores, a crueza e
qualidade dos diálogos, a intensidade do desespero, a abordagem de
temas aterradores e a aposta na esperança em pleno Apocalipse. É o que
a arte americana tem a nos oferecer.
DELÍRIO - A palavra é o
delírio seminal. A partir dela, os anjos da América mergulham no
horror, na coma dos condenados. A peça de Tony Kushner, que virou
mini-série dirigida por Mike Nichols, bate na civilização das
aparências, desmascarada pela peste. Sem nada a perder, os que vão
morrer passam por três processos: ao descobrirem a condenação, reagem
com ironia; ao se convencerem da morte certa, entram em parafuso; ao
cruzarem o umbral da agonia, se resignam; e ao enfrentarem o tribunal
da passagem para a eternidade, cobram.
O maior ator do mundo,
Al Pacino, e o festejado ator de teatro Justin Kirk, estão magistrais
em cada uma dessas fases. Ao redor dos moribundos, brilha a estrela
maior, Meryl Streep, o talento e a contundência de Jefrey Wright e
mesmo Emma Thompson, sempre tão previsível, neste trabalho também
participa da galeria de grandes interpretações. Trata-se de uma arte
que não foge da raia, que enfrenta seus demônios sem pedir
misericórdia, apostando alto na humanidade dos seus personagens,
colocando para fora o que parecia estar oculto. Uma lição de coragem
para nós, brasileiros, que sempre escorregamos pela tangente quando se
trata de pegar o touro a unha.