
Nei Duclós
O que diz Romaria, a obra-prima de Renato
Teixeira, imortalizada por Elis Regina? Numa leitura livre, narra pela
voz de um peregrino o encontro com a possibilidade de um milagre, que
seria a paz nos desaventos, a tranqüilidade de espírito no país
insuportável. Não há treinamento para se chegar a esse objetivo. O
cavaleiro que conta sua desdita justifica seu despreparo traçando o
perfil de suas origens, família, negócios, andanças. Ele não se
conforma com o Mesmo, a repetição da tragédia que é sua vida e vai em
busca do Milagre, que significa interrupção, quando o chão falta e tudo
pode acontecer. Para encontrar o Milagre, ele vai embora (dá o pira),
sabendo que veio do pó e que o pó (de Pirapora) não é território do
sagrado, a não ser que haja fé. Por isso o abismo se abre diante do seu
olhar, seu olhar.
SANTA POPULAR - A grandeza do poema nos pega na primeira nota: É de sonho e de pó/ O destino de um só/ Feito eu perdido em pensamento/ Sobre meu cavalo.
A solidão é o monólogo, a fala sem interlocução, o som sem eco, a
palavra perdida no infinito do deserto, o pó de que somos feitos, o
sertão, o interiorzão, onde nada existe, a não ser o cavaleiro e sua
montaria. Nessa vida, não há espaço para a imaginação, a
transcendência: É de laço e de nó/ De jibeira ou jiló/ Dessa vida/ Cumprida a sol. A
saída é a invocação à Santa, para conseguir superar esse laço apertado
da pobreza e a dura luta pela sobrevivência. Uma invocação que não
esconde a origem do narrador, caipira, pertencente a uma comunidade
(caipira nossa), devota à Senhora de Aparecida. A santa é a prova de
que, sob as águas da luta sem igual entre o homem e seu ambiente, entre
a miséria e a vontade de continuar vivendo, é possível existir o
milagre. Do fundo das águas, surge a representação da Santa, a imagem,
o sinal, e desse evento nasce sua intensa carga popular. É uma santa do
povo, porque está debaixo dágua, invisível, e foi pescada por pessoas
de fé, que por seu intermédio encontram a fartura. Não é de outra
natureza a lenda da Santa: sobreviver com dignidade, usufruindo do
Milagre, ou seja, da mesa farta e generosa, contrariando assim os
desmandos que geram a fome e a morte prematura. O milagre é possível,
ele aparece no meio do trabalho e provê os frutos da água e da terra.
Essa possibilidade (a fartura em meio ao deserto social) é que precisa
iluminar a mina escura e funda dessa vida pessoal condenada ao
fracasso. Ilumina a mina escura e funda/ O trem da minha vida.
Essa iluminação, ao mesmo tempo, funda o movimento (trem), que carrega
os bens (trem) de uma vida que então se renova. A dupla significação da
palavra funda é um dos achados mais preciosos da cultura brasileira e
merece sempre ser celebrada como um dos momentos de esplendor da nossa
poesia.
FORMAÇÃO - De onde vem o peregrino? Vem da dor ancestral de um país partido: O meu pai foi peão/ Minha mãe solidão/ Meus irmãos perderam-se na vida/ Em busca de aventuras.
O narrador cumpre a sina da imobilidade social, pois é peão como o pai.
A mãe é o conformismo, a solidão diante do massacre social. Os irmãos
tentaram sair da miséria, mas perderam-se em busca das aventuras que o
livrariam da sina. O peregrino também tentou sair daquele jogo que o
matava: Descasei, e joguei/ Investi, desisti/ Se há sorte, eu não sei, nunca vi.
Por meio da sorte fica impossível encontrar uma saída, pois trata-se de
uma armadilha: a ascensão social via loteria é um jogo mortal de cartas
marcadas. Não sobra sorte para quem vem do povo. Mas existe uma
possibilidade, a romaria até a Santa: Me disseram porém/ Que eu viesse aqui/ Pra pedir em/ Romaria e prece/ Paz nos desaventos. Que
paz é essa? A paz social. Eliminar os desaventos, conseguir superar as
dificuldades da sobrevivência, conseguir viver em paz, sem ficar
permanentemente à mercê das intempéries. Há, porém , um problema: Como eu não sei rezar/ Só queria mostrar/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar.
Eis uma estrofe que merece ser colocada no alto da casa, para iluminar
a noite. Pouca coisa se compara a esses versos finais. Impressiona pela
ousadia, e nos revela que música popular é criação do mais alto nível.
ESPERANÇA -
Sem saber rezar, sem ter cultivado a herança da oração, por ter se
perdido em tantas tentativas, por estar absolutamente descrente de
tudo, o peregrino está mudo diante da possibilidade de um milagre. Ele
não espera mais nada, tem apenas a oferecer a sua expectativa, a sua
integridade de pessoa à margem, de espectador permanente. Ele observou
tudo na vida, a luta dos pais, as desventuras dos irmãos, sua falta de
sorte. Agora, convocado pela comunidade que ainda acredita na
interrupção do Mesmo, ele vai até Aparecida mas chega lá e não encontra
palavras de oração, que não possui mais, ou nunca teve. Fica então
diante do Abismo, a possibilidade do Milagre. Ele olha para aquela
chance sem poder tocá-la. O narrador se transforma na voz do cantador,
no recado do compositor, na devoção dos ouvintes. Só com essa canção,
Renato Teixeira atingiu a glória. Graças a Deus, e a Nossa Senhora
Aparecida, naquela época em que a música foi feita, tínhamos um milagre
chamado Elis Regina, aquela que nos revelava o Brasil profundo, hoje
mais oculto do que nunca. Tantas canções se perdem em função do horror
do ruído que nos massacra. Redenção, um milagre, pedimos neste dia.
Para que a Inocência do peregrino ainda criança diante da Santa esteja
totalmente protegida. Rogai por nós, Nossa Senhora Aparecida, pela
música do Brasil, que nos falta, como o chão no precipício.