O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era
rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a
intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de
visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que
ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A
viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter
iniciante, que jamais saíra de seu torrão. (Texto publicado dia 4/05/06
no espaço Literário do Comunique-se).
Nei Duclós
Lupicínio Rodrigues desce do avião e coloca o pé no aeroporto, onde
faço plantão, depois de um dia pesado em que obedeci às pautas de
cidade, aquela famosa sucessão de buracos de rua. Ele tem a cara
redonda, covinhas no rosto quando sorri com a boca fina e o brilho no
olhar. É gentil e doce, e ao caminhar deixa a cabeça pendendo levemente
para o lado, como se estivesse ao sabor de algum vento.
- De onde você vem, Lupicínio?
- Fui gravar um disco para a Abril, em São Paulo.
- Tem alguma música inédita?
- Tem. A guarânia Judiaria.
- Canta para mim?
E o foca dos focas, aquele que assume tarefas desprezadas pelos
veteranos, enfrentando o rito de passagem que é esperar personalidades
em viagem, ouve, de viva voz, uma das canções do gênio, bem ao pé do
ouvido: "Agora você vai ouvir aquilo que merece/ As coisas ficam muito
boas quando a gente esquece/ Mas acontece que eu não esqueci a sua
covardia, a sua ingratidão/ A judiaria que você um dia fez pro
coitadinho do meu coração". O verso final saía com aquele jeito rasgado
dele. Sussurrado em meio à balbúrdia, era o maior dos privilégios,
nesta profissão insuportável, mas que não tem outra igual.
- E agora, Lupicínio, qual o próximo passo?
- Aqui em Porto Alegre é só trabalhar.
E seu olhar se perde. Lembro que o tinha visto antes por duas vezes.
Primeiro, num elevador no centro da cidade, onde ele envergava uma
calça apertada, um sapato branco sem meia e uma camiseta listrada. Já
estávamos nos 60, mas ele era um recado dos anos 40. Depois, numa
madrugada, junto com um grupo de universitários, fui conhecer o Clube
dos Cozinheiros, onde Lupicínio apresentou, todo encapotado (era
inverno) alguns dos seus clássicos imortais.
Mas o plantão do aeroporto também podia ser perigoso, como no dia em
que o local estava coalhado de pessoas fardadas. Deveria ser alguém
importante, deduzi, num raciocínio rápido como a luz. Não tive dúvidas.
Cheguei para o primeiro sentinela (ah, a juventude) e lasquei:
- Quem está sendo esperado?
Imediatamente fui cercado por homens de sobretudo e terno, de cabelo de
corte escovinha (só o tampo a cabeça tinha uma pequena relva), olhos
azuis faiscantes de ódio e desconfiança. Fui levado a um reservado onde
tentaram arrancar a confissão daquele terrorista. Eu não atinava com o
problema. Estava vestido de maneira normal: cabelo comprido
despenteado, casaco de brim tingido de preto, presente de um cunhado
capitão do Exército, calça verde desbotada de veludo, feito sob medida
a partir de um cotelê importado da Argentina, que usava no inverno e no
verão, botas de borracha que iam até o joelho, já que eu não dispunha
de nenhum outro tipo de calçado. Qual o problema, qual a estranheza?
Estava apenas fazendo o meu trabalho!
Toda aquela vestimenta me dava um peso extra no corpo que deveria pesar
uns 30 quilos na época. O vento poderia me carregar, por isso talvez
usasse tantas âncoras. Os meganhas não acreditaram na minha história.
Como poderia, com aquela aparência execrável, ser repórter da Folha da
Tarde, da Caldas Junior, a mais importante empresa de jornalismo do Rio
Grande do Sul? Onde estava meu comprovante? Minha carteira
profissional? Minha identificação como jornalista?
Eu não tinha. Acabara de ser selecionado para a vaga e estava
completamente desprevenido. O fotógrafo que me acompanhava ficou branco
de susto, mas telefonou para a redação, e o equívoco foi desfeito. Caí
fora de fininho e jamais soube quem deveria chegar naquele dia.
Plantão era obrigação de foca. O encargo era repassado no final do
expediente, depois de uma tarde de cão. A tortura começava a uma hora
da tarde, quando o chefe de reportagem chegava para distribuir as
tarefas. Para todos dizia sua máxima:
- Vai lá ver o que tem e o que não tem.
As ordens eram incompreensíveis. Um dia fiz uma pergunta tão absurda
para uma fonte que ele me pediu a pauta, que estava escrita num
pedacinho de papel, datilografada. Ele desenrolou o papel que eu tinha
amassado no fundo do bolso, leu e entendeu. Aí me deu a entrevista.
Depois de desovar a produção diária, tinha o plus, que era cercar
passageiros, um expediente que se estendia até tarde da noite. Os
veteranos, espertos, diziam que o plantão de aeroporto era uma aula de
jornalismo, que aprenderíamos tudo ali: dar um furo, conhecer
pessoalmente as personalidades. Ficavam na redação, e ainda tiravam
sarro no dia seguinte dos contratempos dos focas.
O aeroporto era o olho da imprensa, que precisava saber o movimento das
fontes mais importantes. Pouco se tirava de lá, a não ser algumas
frases esparsas, uma plantadinha de notas, um futuro governador ainda
desconhecido (já que eram nomeados e não precisavam de exposição
pública para assumir o posto). As viagens eram mais raras, não é como
hoje que toda celebridade trafega pelo ar a todo momento. Imagino como
seria redundante ficar num plantão aeroporto, ainda mais nesta época de
conexão total, em que dá para cobrir o fim do mundo só com a ajuda do
mouse.
O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era
rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a
intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de
visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que
ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A
viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter
iniciante, que jamais saíra de seu torrão. Mas não se esperava muito do
plantão. As melhores coisas não poderiam ser ditas. Como "entregar" o
esforço de determinado deputado federal em inocular informações que
beneficiassem sua candidatura a ministro de Estado?
Já estávamos escaldados pelo AI-5. O governo era ilegítimo. Os cargos
eram ocupados todos pela direita. Não era possível fazer perguntas
simples como: quem vai chegar hoje? Não se podia tratar uma sentinela
de tchê-loco. Eles saltavam. Queriam pegar na jugular do foca
despreparado, de aspecto rude e roqueiro num mundo de gravatas, quepes
e sapatos com brilho. Hoje todos se vestem como presidiários. Macacões,
camisetas, abrigos, tênis. Continuam todos iguais, nesta sucessão de
personalidades enigmáticas, que vistas de perto perdem todo o encanto
que a mídia tenta lhes dar. É impossível vê-las com uma certa emoção e
solenidade, como víamos os lideres antes de 1964, quando a imagem era
formatada pelo rádio, imaginada por emissão da voz e vestida de mitos
que se foram.
Mas é bom que todo esse carisma se perca. Pelo menos não poderemos cair
no erro que cometi quando vi Oito e Meio, de Fellini, pela primeira
vez. Cheio de fumaças intelectuais, eu observava o longo travelling do
início do filme, aquele em que as pessoas cumprimentam a câmara bebendo
algo desconhecido e que tem por desfecho a aparição de Claudia
Cardinale, mais bonita do que um anjo. Eu estava no cinema de
Uruguaiana ao lado do meu colega de aula Rubens Lenar Güez. De repente,
no meio do travelling, ele me perguntou:
- Sabes o é que isso?
Respirei fundo e defini:
- A humanidade em desfile!
- Não, disse o bom Rubens. É uma fonte de água mineral.
Tinha matado a charada. Enquanto eu me esforçava em ver algo mais do
que simplesmente uma cena humana, ele decifrava o mistério apenas com a
melhor qualidade de um repórter: a observação pura e simples, sem
ilusões, tambores ou clarins. Era um sinal de como deveríamos nos
comportar a partir daquela data: enxergando no anonimato da massa em
trânsito aquilo que se destaca como fato. A aparência singular da
notícia depende da vocação do jornalista que assume a profissão para o
resto da vida, mesmo que o prendam pela falta de preparo.