Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror
às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas
do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã
assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos,
o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias
da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática
cara à segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11/maio/2006 no
espaço Literário do Comunique-se).
Nei Duclós
Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror
às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas
do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã
assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos,
o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias
da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática
cara à segunda Guerra Mundial. Tinha certeza de que seria novamente
reprovado por não saber que dois pontinhos ao lado do arabesco
significavam "segundo o senhor presidente da República".
Por isso, escudado nas mais justas desculpas, como o fato (real) de que
os melhores professores tinham sido expulsos e restávamos sós depois da
grande dispersão e derrota, aceitei o convite absurdo de um grupo de
desocupados como eu. Partimos numa viagem suicida cruzando o pampa, em
direção a um destino que decidimos ser Montevidéu, mas que apenas
revelou a armadilha onde estávamos metidos. Antes, precisava passar
pela minha cidade e pegar uma declaração paterna, já que eu era dimenor
(naquela época completávamos 80 anos sem atingir a maioridade; hoje é
diferente; com apenas um ano já é possível zapear do programa da Xuxa
para o noticiário).
O álibi era a viagem encarada como a verdadeira iniciação do
jornalista. Nem precisava mais ir às aulas que eu abandonara
covardemente diante da perspectiva de me transformar no ghost-writer do
Faraó. Moço, eu já esgrimia essa instituição nacional que é a meia
verdade. A viagem patrocinada pelo emprego, com tudo em cima, era
diferente daquele ermo onde nos metemos. Simplesmente fomos para a
estrada com quase nada no bolso. Eu nem levava caneta e papel, que dirá
gravador ou máquina fotográfica. Simplesmente arrastei pela estrada as
congas, cholitas, coturnos ou não lembro mais que tipo de pisante me
acompanhou naquele delírio.
A idéia era ir de carona, mas sabemos como aquele miolo do Rio Grande
gosta de preservar as tradições. É possível encontrar até hoje o
célebre slogan "aqui tem mumu", e as cidades ao longo da carreteira
ostentam ainda aquele ar blasé de fog em meio à madrugada, entrevisto
na parada de uma interminável viagem de trem rumo à fronteira. Não
havia carona porque nenhum carro passava por ali. Precisei pegar alguns
ônibus, já apartado do resto da turma, que fez sucesso em Santa Maria e
resolvera ficar por lá. Até hoje a estadia do grupo no coração do
estado gaúcho é lembrada por uma frase dita para a massa de meninas
deslumbradas e rapazes desconfiados que rodearam a troupe por mais de
uma semana: desculpem não vomitar na cara de vocês! dita pelo mais
radical dos artistas de rua. A transgressão chegava ao solo sagrado da
pátria pampeana, impulsionada pela nação em silêncio e o raspar de
sabres.
Eu vagava só em meio aos quero-queros, preparando meu discurso para
quando chegasse diante do último obstáculo: a licença para sumir do
mapa. Ainda tinha esperança de reencontrar a turma já em Livramento,
que, ao contrário de Uruguaiana, que guarda prudentes dois quilômetros
de rio de distância, está abraçada aos castelhanos como irmã xipófaga.
Eu já me sentia no Exterior, no momento em que atravessava a rua para
mendigar um café. Faltava apenas esperar o circo chegar para então
inaugurarmos a nossa operação Condor.
Como não podia gastar nada, já que a perspectiva era chegar até o
Prata, fui dormir no lugar mais improvável para uma época hoje lembrada
como de terror absoluto: a delegacia de polícia. Já tinha feito a
experiência meses antes, em viagens paralelas que prepararam esta que
agora tomava todo o meu tempo. Conseguia um lugar fora da cela, mas
minha mordomia acabou quando mudou o plantão. O novo hospedeiro
desconfiou do meu aspecto, e das mumunhas ditas em tom sério demais
para alguém que estava simplesmente matando aula. E me encaminhou para
o quartel mais próximo, onde eu deveria enfrentar o temível S-2.
Por sorte o capitão não estava e fui então convidado a sair da cidade.
Você vai hoje, se amanhã te pegamos por aqui...E foi assim que juntei
minha mochila e usei os últimos tostões (amealhadas na rápida estadia
na casa paterna)para a volta. Era o fim da ilusão de que eu poderia
escapar de uma vida normal e viver um romance de aventuras. Quixote sem
ter lido livros suficientes para alimentar a loucura, saí de cena antes
do primeiro moinho de vento. Trazia o ar atordoado de quem procurou
algo impossível de achar, como o personagem de Paris, Texas, de Wim
Wenders, mas sem a guitarra ao fundo. A solução era ficar na fila de
espera dos poucos jornais que de vez em quando abriam alguma vaga.
Será que precisavam de um escriba que não fechava os punhos em cima da
mesa, com os braços estendidos, desapertava a gravata e olhava para o
infinito como faziam os jornalistas bem postos? Será que era possível
confiar em alguém que não andava apressadamente na redação para sugerir
dinamismo? Ou que não pedia o lanche logo que chegasse, sempre no final
do expediente, só para impressionar o diretor ("veja, estou aqui desde
cedo, nem tive tempo de al-mo-çar", diriam esses com a boca cheia de
iogurte)? Será que precisavam de um ex-viajante, que por pouco não
dançou numa cela qualquer e foi salvo pela própria falta de importância
no concerto internacional das nações?
Não, não precisavam. As empresas já estavam ocupadas pela carranca que
acabou empurrando a nata da geração para a imprensa alternativa. E quem
tinha sido expulso do romantismo da primeira grande viagem e agora
aportava nas redações em pânico, esse era o momento de iniciar uma
longa jornada. Completamente inverossímil, como todas as outras. Porque
tudo passou como se fosse apenas um instante, e nossa vida encontrou o
caminho simplesmente fazendo as malas toda vez que o jornalismo nos
pregava um novo susto.
Por vingança, inventei minha própria charada taquigráfica. Os
garranchos eram a forma de ocultar a identidade perdida na época em que
cruzei o pampa. Era um código, que nunca decifrei. Passo os olhos pelas
folhas borradas de sinais e noto que a única forma de salvação foi
guardar tudo na memória, não para usar no fechamento, mas para que o
tempo me fizesse companhia, como um cavalo encilhado que jamais
montamos.