Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão
de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um
estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma
platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Foi nessa luta com
a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e
que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência,
que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes
que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um
só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em
papel datado. (Texto originalmente publicado no espaço Literário, do site Comunique-se, em 30/03/06).
Nei Duclós
A palavra não se instala nas criaturas por prazo de validade. Não é
porque a criança completou determinado número de meses que estará
automaticamente apta para articular a ponte com seus semelhantes. É um
trabalho árduo.Os instrumentos disponíveis para a fala entram em fase
dura de exercício desde o primeiro instante. O choro e, quando
necessário, o berro, são as primeiras manifestações que servem para
alertar sobre o uso dos recados.
Mas entre manifestações desse tipo e a primeira palavra, há uma série
de eventos que incluem as nuances definidas pelo som que passa na
garganta e depois encontra a gruta onde mora a mágica, a língua em
movimento, os dentes e o céu da boca, limites que decidem sobre as
consoantes em choque com as vogais trazidas do berço.
Vejo isso na minha neta, que me resgatou a memória dos bebês, da qual
estava apartado por ter sido pai muito cedo - aos 24 anos, coincidindo
com minhas primeiras redações. Quando entrei na Folha da Tarde, da
Caldas Junior, abraçado a uma versão traduzida e resumida dos Quatro
Quartetos, de T. S. Eliot, além de provocar o comentário debochado dos
veteranos ("pronto, mais um intelectual de sovaco", disse Jorge
Escosteguy) eu no fundo queria levar para o novo ofício o que me
seduzia desde muito cedo: a possibilidade de, num mundo escasso,
conseguir sintonizar com a força da permanência. Tarefa impossível para
quem foi jogado no mundo real, o de contar buracos de rua e fazer
plantão no aeroporto.
Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão
de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um
estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma
platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Para isso era
preciso humildade. Mas não totalmente naquele ambiente liderado por
Walter Galvani, que tinha Danilo Ucha, Luis Fruet, Scotch (que me
contava mais tarde, às gargalhadas, sua primeira impressão sobre o foca
que chegava esperançoso de ler um livro no intervalo dos textos), entre
muitos outros . Fui estimulado a colocar na roda o que me cercava e foi
assim que fiz meu primeiro lead inesquecível.
A notícia era saborosa. Um teco-teco vinha pelo campo e bateu numa
vaca. O caso foi ao tribunal porque o fazendeiro não se conformou com a
perda do animal. O juiz então perguntou para o piloto:
- A que altura o senhor vinha voando?
- A uma altura de meia vaca, Excelência, disse o piloto.
- Pois na próxima vez, advertiu o juiz, venha na altura de vaca e guampa.
A abertura inusitada provocou gargalhadas na redação e foi publicada.
Foi assim que fui festejado na primeira vitória diante desse trabalho
insano que é articular as palavras para que todos entendam e fiquem com
vontade de ler.
Quando migrei para São Paulo, empurrado pelo estreito mercado de
trabalho na terra de origem, cheguei com as fumaças daquela festa e
imediatamente fui colocado no meu lugar. Woile Guimarães me chamou num
canto e sussurou: estes lugares comuns que você colocou aqui, seu
gaúcho, são uma grande porcaria (não exatamente com essa abordagem
família, mas com uma saraivada de outras, ainda impublicáveis).
Redescobri então que deveria começar de novo, não para agradar o chefe
rigoroso, mas porque essa era pedreira que precisava encarar.
No rodízio que cumpri religiosamente pelos veículos, encontrei textos
encarnados em pessoas brilhantes. Vi Macedo Miranda, filho, definir os
contornos do texto de uma revista, de estrutura circular e com os
parágrafos sintonizados sem nenhum vício; vi Ricardo Vespucci, de olho
saltado, cinzelar textos perfeitos a partir de matérias de repórteres
inigualáveis como Caco Barcelos e Audálio Dantas; vi Genilson César e
Antenor Nascimento, nas madrugadas, conseguirem repassar para a
publicação pequenas jóias do jornalismo e acompanhei o trato com a
escrita que Humberto Werneck, Nirlando Beirão, Mino Carta e Wagner
Carelli davam em cada linha, como se fosse a última.
Foi assim que passei o tempo que me deram para viver sobre a terra.
Plantado no jornalismo como um eterno aprendiz, me perguntava quando
chegaria a hora de também colocar preto no branco algo que poderia ler
muito tempo mais tarde. Foi nessa luta com a primeira palavra que
inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma
identidade sem esperança de que ela terá permanência, que trafeguei
entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se
negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um só, limpando de
cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado.
Uma criança, como o eterno foca, compõe a roda de sons com a alegria
dos iniciantes, que aprende a sobriedade em contato com quem chegou
antes. Depois das vogais dos primeiros instantes, surgem algumas
consoantes para desencadear a pressa dos mais velhos. Ela disse mãe,
ela disse vô, ela disse titio, exultam os adultos. Mas a criança guarda
seus segredos trazidos da além vida. Uma sílaba pode batizar várias
coisas e a celebração de uma vitória aparente entra em dúvida quando a
mesma emissão de voz serve para mais de um batismo. É cedo ainda, nos
dizemos. Ainda não veio a primeira palavra.
Moramos nessa expectativa enquanto a criança deita e rola na véspera da
linguagem. Ela engatinha, depois anda e aponta com os bracinhos
esticados o que quer. Pássaros são chamados com gritos agudos. Um choro
específico é a fruta fora do alcance. Mas chega o momento em que todos
correm para registrar o que seria enfim o som, tão esperado.
- Baia baia didi tum, diz a neta, para espanto da assistência.
Para que não fiquemos frustrados, ela faz seu gesto característico:
franze o narizinho e emite um sopro que é puro charme. Quem precisa de
palavra quando o espírito é vasto e o amor rege nossas vidas fora dos
esquemas poderosos que tentam nos esmagar com suas leis?